25 anos depois, cânceres ligados ao 11 de Setembro já passam de 57 mil casos reconhecidos
Doenças associadas à exposição à poeira e às substâncias tóxicas do World Trade Center continuam sendo diagnosticadas décadas após os atentados
Vinte e cinco anos depois dos ataques que derrubaram as Torres Gêmeas, em Nova York, o 11 de Setembro continua produzindo consequências que ultrapassam — e muito — as vítimas contabilizadas naquele dia. Dados oficiais divulgados em agosto apontam que pelo menos 57 mil casos de câncer já foram reconhecidos como relacionados à exposição aos agentes tóxicos liberados após o colapso do World Trade Center.
O número chama atenção pelo crescimento registrado ao longo dos anos. Há uma década, eram aproximadamente 5.600 casos reconhecidos. A multiplicação dos registros está relacionada tanto ao surgimento de novos diagnósticos quanto ao avanço das pesquisas científicas, que passaram a identificar relações entre a exposição ocorrida após os atentados e diferentes tipos de doenças.
A poeira que tomou conta de parte de Manhattan carregava uma mistura de substâncias perigosas. Entre elas estava o amianto, além de outros agentes potencialmente cancerígenos provenientes da destruição das estruturas dos edifícios e de materiais que estavam dentro deles.
Documentos expõem falhas na resposta
Às vésperas dos 25 anos dos atentados, mais de 170 mil documentos anteriormente mantidos sob sigilo vieram a público em meio a uma disputa judicial envolvendo a Prefeitura de Nova York.
Os arquivos ajudam a reconstruir a resposta das autoridades depois da destruição do complexo do World Trade Center e levantam questionamentos sobre as informações transmitidas à população e aos trabalhadores que atuaram na região.
Naquele período, pessoas que circulavam próximas à área atingida receberam orientações de que permanecer nas ruas seria seguro. Também houve, segundo os documentos, minimização da necessidade de equipamentos de proteção individual para trabalhadores envolvidos nas operações de resgate, limpeza e recuperação.
O cenário, porém, apresentava uma concentração de contaminantes que só seria compreendida de maneira mais ampla nos anos seguintes.
Doenças aparecem décadas depois
Um dos grandes desafios enfrentados pelos sobreviventes e pelos profissionais que participaram dos trabalhos após os atentados é justamente o intervalo entre a exposição e o aparecimento de determinadas doenças.
Muitos dos trabalhadores que atuaram nos escombros hoje estão entre 60 e 80 anos. Alguns chegam aos programas de assistência já com doenças em estágio avançado e sem saber que podem ter direito ao atendimento oferecido pelo governo americano.
A brasileira Maria Nelly, de 27 anos, natural de Maceió, trabalha no atendimento a pessoas que procuram reconhecimento de doenças relacionadas à exposição. Segundo ela, muitos sobreviventes apresentam dificuldades graves de comunicação em razão de problemas de saúde que atingiram a voz e a fala.
O advogado Matthew McCauley, ex-paramédico e policial aposentado de Nova York que participou das operações de resgate e posteriormente passou a representar pessoas afetadas, afirma que o reconhecimento da exposição é fundamental para garantir acesso aos programas públicos de saúde.
Até mesmo Rudy Giuliani, prefeito de Nova York na época dos ataques, recorreu recentemente à Justiça para buscar o custeio de tratamento contra pneumonia. Ele afirma ter sido diagnosticado anteriormente com uma doença pulmonar restritiva que relaciona à exposição ao ar contaminado após o 11 de Setembro.
Programa já registra 139,4 mil condições de saúde
Criado em 2010, o Programa de Saúde World Trade Center registra atualmente aproximadamente 139,4 mil condições de saúde relacionadas aos atentados. O número não corresponde necessariamente à quantidade de pessoas, já que um mesmo paciente pode apresentar mais de uma doença.
Os problemas respiratórios representam a maior parcela dos registros. Na sequência aparecem os cânceres e os transtornos de saúde mental.
Entre os tumores reconhecidos estão cânceres de pele, próstata, mama, tireoide, rim e pulmão, além de diferentes tipos de linfoma.
Os bombeiros de Nova York tiveram papel importante na produção das evidências científicas sobre os efeitos da exposição. Pesquisas conduzidas ao longo dos anos identificaram aumento da incidência de câncer entre profissionais que trabalharam diretamente em meio à fumaça, à poeira e aos destroços.
Estudos envolvendo biomarcadores também encontraram alterações genéticas em parte dos bombeiros expostos. Em determinadas análises, algumas mutações apareceram com frequência significativamente maior entre profissionais enviados ao local dos ataques, e a presença dessas alterações esteve associada a um risco elevado de leucemia.
Quem ficou de fora da assistência?
Mesmo com a ampliação dos programas de saúde, ainda existem grupos cuja situação permanece em discussão.
Um dos exemplos envolve crianças que ainda estavam no útero no momento dos ataques. Segundo McCauley, mulheres grávidas expostas à contaminação podem ser elegíveis aos programas, mas seus filhos nem sempre conseguem obter o mesmo reconhecimento, caso não tenham posteriormente estado fisicamente na área atingida.
A questão mostra como as consequências do 11 de Setembro ultrapassaram o período imediatamente posterior aos atentados e continuam gerando debates médicos, científicos e jurídicos.
Uma tragédia que ainda não terminou
Os ataques de 11 de setembro de 2001 deixaram 2.753 mortos no World Trade Center, entre ocupantes dos edifícios, passageiros e tripulantes dos aviões e pessoas atingidas nas proximidades. Mesmo 25 anos depois, cerca de 40% dessas vítimas ainda não foram identificadas.
Mas a dimensão da tragédia não está apenas nos números daquele dia.
Para milhares de bombeiros, policiais, profissionais de emergência, trabalhadores, moradores e outras pessoas expostas à poeira tóxica, o 11 de Setembro continuou depois que os escombros foram retirados e a cidade começou a reconstruir sua rotina.
Novos diagnósticos, pesquisas científicas e disputas judiciais mostram que os efeitos da exposição podem permanecer durante décadas. Um quarto de século depois, a história do 11 de Setembro ainda está sendo escrita — desta vez, nos prontuários médicos, nos tribunais e na vida daqueles que sobreviveram.




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