A cultura do ódio: como a misoginia se organiza na internet
- Marcus Modesto
- há 29 minutos
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Durante décadas, diferentes grupos masculinos têm ocupado fóruns da internet, redes sociais e canais digitais para difundir discursos que reforçam hierarquias de gênero e hostilidade contra as mulheres. Para especialistas, esses espaços funcionam como ambientes de radicalização que podem estimular comportamentos violentos no mundo real.
Casos recentes de violência sexual, como o estupro coletivo de uma adolescente ocorrido no Rio de Janeiro, voltaram a colocar em debate a influência dessas comunidades virtuais. Pesquisadores e ativistas apontam que parte dessas ações violentas é alimentada por ideologias organizadas que promovem a desumanização feminina.
Misoginia como fenômeno estrutural
Esses movimentos estão ligados ao conceito de misoginia, definido como o ódio às mulheres e a defesa da manutenção de privilégios históricos masculinos nos campos social, cultural, econômico e político.
Em resposta às pautas do feminismo — movimento que reivindica igualdade de direitos entre homens e mulheres — alguns grupos passaram a difundir o chamado masculinismo, um conjunto de ideias que defende papéis de gênero tradicionais e a superioridade masculina.
Uma das estratégias utilizadas por esses grupos é a tentativa de criar uma falsa equivalência com o termo “misandria”, apresentado por eles como um suposto movimento de ódio contra os homens. Segundo pesquisadores, a ideia é deslegitimar reivindicações feministas e apresentar políticas de proteção às mulheres como ataques à masculinidade.
Ataques organizados na internet
A escritora e ativista feminista Lola Aronovich convive com ataques virtuais desde 2008, quando criou o blog “Escreva Lola Escreva”, espaço dedicado à análise de machismo e violência de gênero.
A mobilização de Aronovich ajudou a impulsionar a criação da Lei nº 13.642/2018, que atribuiu à Polícia Federal do Brasil a responsabilidade de investigar crimes misóginos na internet.
Segundo ela, os agressores costumam apresentar perfis semelhantes.
“Desde o começo do meu blog percebi que são homens heterossexuais, de extrema direita, que apoiam lideranças como Jair Bolsonaro e Donald Trump. Eles carregam um conjunto de preconceitos: além do machismo, aparecem racismo, homofobia, xenofobia e outros tipos de discriminação”, afirma.
Comunidades e grupos da chamada “machosfera”
O universo desses movimentos ficou conhecido como machosfera, termo usado para descrever um conjunto de comunidades online que compartilham ideologias antifeministas.
Entre os grupos mais conhecidos estão:
• Incels – abreviação de involuntary celibates (“celibatários involuntários”). São homens que afirmam não conseguir relacionamentos amorosos ou sexuais e culpam as mulheres por isso.
• Redpill – ideologia inspirada no filme The Matrix. Os adeptos acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam os homens e defendem o retorno à dominação masculina.
• MGTOW (Men Going Their Own Way) – grupo que defende o afastamento completo de relações com mulheres, alegando que as leis e a sociedade favorecem o sexo feminino.
• Pick Up Artists (PUA) – comunidades que ensinam técnicas de manipulação psicológica para conquistar mulheres, tratadas como troféus ou objetivos sexuais.
• Chans – fóruns anônimos da internet que frequentemente servem de espaço para discursos extremistas e campanhas de assédio digital.
A criação de hierarquias masculinas
Dentro dessas comunidades surgiram também termos que tentam classificar homens e mulheres em hierarquias sociais ou genéticas.
Alguns exemplos:
• Chad – o homem considerado fisicamente perfeito e altamente desejado.
• Alfa – idealização do homem dominante, forte e líder.
• Beta – homem comum, visto como submisso ou sem status social.
• Sigma – figura popularizada nas redes sociais como um “alfa solitário”, supostamente independente da validação social.
Entre as mulheres, surgem classificações igualmente estereotipadas, como Stacy, usada para descrever mulheres extremamente atraentes, e Becky, termo depreciativo para mulheres consideradas comuns.
Linguagem de desumanização
Além das classificações, esses grupos utilizam gírias e siglas que reforçam a desumanização feminina.
Expressões como “AWALT” (All Women Are Like That, ou “todas as mulheres são assim”) generalizam comportamentos femininos. Já termos como “femoid”, que significa “organismo humanóide feminino”, sugerem que as mulheres seriam inferiores ou até subumanas.
Há também teorias pseudocientíficas, como a regra “80/20”, que afirma que 80% das mulheres disputariam apenas 20% dos homens mais atraentes ou ricos.
Da internet para a vida real
Pesquisadores alertam que, embora muitos desses discursos pareçam apenas debates online ou memes de internet, eles podem funcionar como espaços de radicalização.
Ambientes virtuais que reforçam ressentimento, misoginia e teorias conspiratórias acabam criando comunidades fechadas onde a violência contra mulheres é normalizada ou incentivada.
Por isso, especialistas defendem que o enfrentamento desse fenômeno passa não apenas por investigação policial e legislação, mas também por educação digital, debate público e políticas de igualdade de gênero. com informações da Agência Brasil




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