A república da tornozeleira
- Marcus Modesto
- 18 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
O cerco jurídico ao ex-presidente Jair Bolsonaro simboliza mais que um avanço pontual das investigações: é o retrato de um país que chega, aos trancos, à encruzilhada entre a Justiça e o delírio autoritário. Com a ordem do ministro Alexandre de Moraes determinando o uso de tornozeleira eletrônica, recolhimento noturno e fim do contato com diplomatas estrangeiros, o Supremo Tribunal Federal tenta conter não apenas um homem, mas os ecos de um projeto político que flertou com o golpe e agora tenta escapar pela porta dos fundos da História.
A movimentação recente de Bolsonaro — tentando viajar, reunir-se com Trump, buscar apoio entre líderes da extrema direita global e, agora se sabe, guardando dólares em espécie em casa — só reforça o óbvio: o ex-presidente nunca aceitou a derrota nas urnas nem a legitimidade das instituições democráticas. E mais: demonstra um desespero típico de quem sabe o que fez — e teme pagar por isso.
A presença de 10 mil dólares escondidos, o discurso de “negociar com Trump”, as idas e vindas de assessores em embaixadas, a carta absurda do ex-presidente dos EUA tentando interferir num processo judicial brasileiro… tudo isso compõe um cenário grotesco e perigoso. A tentativa de internacionalizar a crise, com apoio de forças externas, é um alerta que o STF parece ter entendido — mesmo que tardiamente.
Se restava alguma dúvida de que Bolsonaro planejava um salto no escuro, buscando refúgio político ou asilo diplomático, as medidas cautelares agora impõem um limite: o de que nem mesmo um ex-presidente pode viver acima da lei. E mais importante: demonstram que o Judiciário, pressionado por provas e pelo clamor público, finalmente começa a agir com o rigor que se espera diante de uma tentativa de subversão da ordem constitucional.
O Brasil está diante de um julgamento que será também um teste civilizatório. Bolsonaro não está sendo punido por suas ideias — por mais absurdas que sejam —, mas por ações concretas: por articular um golpe, tentar subverter a democracia, usar a máquina pública para seus fins pessoais.
Se for condenado, o país dará um passo necessário rumo à maturidade institucional. Se for absolvido, restará a mensagem de que, no Brasil, o poder ainda pode tudo — inclusive tentar destruir a República e sair andando, tornozeleira no tornozelo, como se nada tivesse acontecido.




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