Anne Applebaum alerta para possível atuação do trumpismo nas eleições brasileiras de 2026
- Marcus Modesto
- há 59 minutos
- 3 min de leitura
A historiadora e jornalista americana Anne Applebaum afirmou que grupos ligados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, podem tentar exercer influência sobre as eleições brasileiras de 2026. A declaração foi dada durante entrevista ao jornal O Globo, na qual a escritora analisou o avanço internacional de movimentos conservadores alinhados ao trumpismo.
Especialista em regimes autoritários e vencedora do Prêmio Pulitzer pelo livro Gulag, Applebaum afirmou que setores ligados ao movimento Maga — sigla para “Make America Great Again” — vêm atuando para fortalecer lideranças ideologicamente próximas em diferentes países, incluindo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a autora, integrantes do governo americano e grupos políticos próximos a Trump podem utilizar campanhas de comunicação, articulações políticas e estratégias de influência internacional para interferir no ambiente eleitoral brasileiro. Ela comparou esse tipo de atuação a antigos modelos de exportação ideológica utilizados ao longo do século XX.
Críticas ao uso político das instituições americanas
Durante a entrevista, Applebaum também criticou medidas recentes adotadas pelo governo Trump nos Estados Unidos. Entre os pontos mencionados está a criação de um fundo bilionário destinado a apoiar aliados políticos que alegam perseguição judicial durante a gestão do ex-presidente Joe Biden.
Na avaliação da historiadora, o uso de estruturas estatais para favorecer grupos políticos representa risco às instituições democráticas. Ela afirmou que o controle político de órgãos como o Departamento de Justiça e o FBI pode abrir espaço para práticas de aparelhamento e fortalecimento de interesses partidários.
Applebaum ainda demonstrou preocupação com o cenário eleitoral americano, afirmando existir temor de que setores do trumpismo utilizem mecanismos administrativos e jurídicos para questionar resultados eleitorais ou dificultar o acesso de determinados grupos ao processo de votação.
Brasil entra no radar de alianças conservadoras
Ao abordar o cenário internacional, a escritora citou episódios recentes envolvendo a aproximação de representantes do governo americano com lideranças conservadoras europeias, como o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. Segundo ela, movimentos semelhantes podem ocorrer em relação ao Brasil, diante da conexão ideológica entre o trumpismo e grupos bolsonaristas.
Apesar do alerta, Applebaum afirmou acreditar que tentativas externas de influência costumam provocar reações negativas na população e nas instituições nacionais. Para ela, cabe ao Brasil garantir a soberania do processo eleitoral e preservar a independência democrática diante de pressões internacionais.
Paralelos entre populismo e autoritarismo
Com o relançamento do livro Cortina de Ferro no Brasil, a historiadora voltou a discutir semelhanças entre regimes autoritários do passado e práticas observadas em governos populistas contemporâneos.
Ela apontou como elementos comuns a utilização política das instituições, a pressão sobre órgãos de Justiça, a influência sobre meios de comunicação e a organização de movimentos ideológicos com forte atuação pública.
Applebaum destacou, entretanto, que existem diferenças importantes entre os contextos históricos. Segundo ela, regimes como o stalinismo recorreram à violência em larga escala, enquanto governos atuais operam principalmente com instrumentos políticos, econômicos e institucionais.
Guerra na Ucrânia também foi alvo de críticas
A autora ainda comentou o conflito entre Rússia e Ucrânia, criticando a condução das negociações internacionais envolvendo o governo Trump.
Segundo Applebaum, os Estados Unidos têm priorizado interesses econômicos e diplomáticos em relação a Moscou, sem apresentar propostas concretas capazes de pressionar o governo russo pelo encerramento da guerra.
Ela afirmou que o Kremlin mantém objetivos ligados ao enfraquecimento da soberania ucraniana, incluindo ações voltadas contra a identidade cultural e linguística do país. Para a historiadora, qualquer avanço real nas negociações dependerá da percepção russa de que seus objetivos militares não poderão ser alcançados nas condições atuais do conflito.




Comentários