Cármen Lúcia crava “prova cabal” e STF caminha para condenar Bolsonaro por liderar organização golpista
- Marcus Modesto
- 11 de set. de 2025
- 2 min de leitura
O julgamento da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) pode entrar para a história como o capítulo em que Jair Bolsonaro (PL) deixou de ser apenas um ex-presidente derrotado para se tornar, oficialmente, chefe de uma organização golpista. Foi o que afirmou nesta quinta-feira (11) a ministra Cármen Lúcia, ao formar maioria pela condenação de Bolsonaro e outros réus acusados de crimes contra a democracia.
Com sua verve habitual, a ministra não economizou nas palavras: “Desenvolveram e implementaram plano progressivo e sistemático de ataque às instituições democráticas”. No núcleo central, segundo ela, estavam militares de alta patente, operadores de inteligência e figuras-chave do antigo governo. Em bom português: não era “bravata de WhatsApp”, mas um projeto arquitetado em reuniões palacianas.
Um julgamento com cheiro de marco histórico
Cármen tratou o caso como mais do que a punição de indivíduos. Para ela, é o “encontro do Brasil com seu passado, com seu presente e com seu futuro”. E aqui mora a ironia: um país que já viu golpes de toda ordem parece, finalmente, disposto a olhar no espelho e admitir que não pode viver eternamente refém da quartelada de ocasião ou do messias de plantão.
Em seu voto, a ministra ainda cutucou a ferida contemporânea das redes sociais e da manipulação digital, falando em algoritmos e criptomoedas como armas invisíveis de um novo tipo de ataque. O diagnóstico foi claro: a democracia não foi apenas alvejada por tanques ou fardas, mas também por curtidas, hashtags e moedas digitais que circulam como se fossem provas de fé.
As divergências de praxe
O placar agora está em 3 a 1 pela condenação. Além de Cármen, Alexandre de Moraes e Flávio Dino já haviam sustentado que Bolsonaro comandou a engrenagem golpista. O ministro Luiz Fux, por sua vez, optou por minimizar: chamou as falas e atitudes do ex-presidente de “desabafo”, “choro de perdedor” e “bravatas”. Uma leitura que soa como a tentativa de transformar o roteiro de um golpe em um simples diário de adolescente revoltado.
Ainda assim, Fux não poupou outros réus: acompanhou Moraes na condenação do general Braga Netto e do ex-ajudante de ordens Mauro Cid pela tentativa de abolição do Estado democrático de Direito. A ironia é evidente: Bolsonaro pode até ser tratado como um inconsequente verborrágico, mas seus principais auxiliares já carregam nas costas a pecha de conspiradores.
Ironias da história
O julgamento revela um paradoxo brasileiro. Bolsonaro tentou se apresentar como “salvador da pátria” e terminou enquadrado como chefe de um plano contra o próprio Estado de Direito. Seus defensores gritam censura, perseguição e ditadura da toga, mas os votos que se acumulam no STF lembram que o golpe de 2022 não morreu de causas naturais: está registrado em mensagens, reuniões e vídeos que não deixam margem para o improviso.
No fundo, o que se julga é se o país está disposto a virar a página da política do caos ou se continuará refém de lideranças que confundem a derrota nas urnas com convite para atacar a democracia. Como disse Cármen Lúcia, “nela pulsa o Brasil que me dói”. E talvez doa justamente porque, mais uma vez, a democracia precisou de ministros togados para dizer o óbvio.




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