Carapicuíba vira “paraíso” das emendas Pix com aval de bancada evangélica, mas sofre com falta de transparência
- Marcus Modesto
- 7 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Com apenas 367 mil habitantes, Carapicuíba, na Grande São Paulo, ocupa a 17ª posição entre os municípios mais populosos do estado. Ainda assim, lidera o ranking nacional de repasses via emendas Pix, recebendo desde 2020 mais de R$ 157 milhões — volume superior ao de grandes capitais como São Paulo, que oferece muito mais transparência sobre os gastos públicos.
O fenômeno chama atenção por uma particularidade: 58% desses recursos vieram de deputados da bancada evangélica, embora a maioria desses parlamentares tenha tido desempenho pífio nas urnas da cidade. O pastor e deputado federal Marco Feliciano (PL), por exemplo, enviou R$ 33 milhões, sendo que recebeu apenas 2.198 votos no município nas últimas eleições.
Essas emendas, chamadas de Pix por serem transferidas diretamente para as contas das prefeituras, dispensam contrapartidas e exigem menos burocracia — mas, justamente por isso, são criticadas por dificultar o controle e a fiscalização do uso do dinheiro público. O Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) e o Supremo Tribunal Federal (STF) vêm cobrando explicações dos municípios, e Carapicuíba é um dos alvos prioritários.
Dinheiro sem destino claro
Deputados ouvidos pela reportagem disseram não saber onde o dinheiro foi aplicado, e os sistemas de acompanhamento do governo federal mostram diversas informações incompletas ou incorretas.
A deputada Ely Santos (Republicanos), por exemplo, destinou R$ 200 mil para a compra de um castramóvel a pedido de um vereador da cidade. Contudo, o sistema federal aponta uso genérico para “manutenção de infraestrutura” — e até hoje o veículo não foi entregue. O Ministério da Economia pediu esclarecimentos, e o Ministério da Integração afirmou que o projeto sequer se enquadra em sua competência.
Outro exemplo é uma emenda de R$ 6 milhões enviada por Feliciano para obras de infraestrutura, compra de cestas básicas e acolhimento de crianças. Um parecer técnico do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social de 25 de março concluiu que “as informações estão incompletas e não permitem concluir a análise”.
Veja abaixo os 10 deputados que mais enviaram recursos para Carapicuíba desde 2020:
Deputado Valor das emendas
Marco Feliciano (PL) R$ 33,9 milhões
Alexandre Frota (PSDB) R$ 27,1 milhões
Vinicius Carvalho (Republicanos) R$ 17,9 milhões
Milton Vieira (Republicanos) R$ 16,4 milhões
Eli Corrêa Filho (União Brasil) R$ 12,2 milhões
Gilberto Nascimento (PSC) R$ 7,4 milhões
Jefferson Campos (PL) R$ 6,8 milhões
Abou Anni (União Brasil) R$ 5,9 milhões
Bruno Ganem (Podemos) R$ 4,9 milhões
Roberto de Lucena (Republicanos) R$ 4,8 milhões
Obras paradas e problemas de execução
Apesar dos altos repasses, Carapicuíba acumula obras paralisadas e problemas de qualidade. Um exemplo é uma creche abandonada na Vila Veloso, cuja construção foi iniciada em 2016 e está paralisada há cerca de três anos. O prédio virou símbolo do descaso, com estrutura pichada e sinais de abandono.
No bairro Parque Jandaia, moradores reclamam que o recapeamento feito com verba federal já apresenta buracos. “É só chover que o ônibus passa e o asfalto afunda”, relata o aposentado Jaime Dias de Oliveira, de 64 anos.
Prefeitura se defende
A Prefeitura de Carapicuíba nega falta de transparência e afirma que todas as transferências especiais estão devidamente registradas no sistema Transferegov, no Diário Oficial do Município e nos portais oficiais. Segundo a gestão do prefeito José Roberto (PSD), os recursos permitiram a criação do Pronto Atendimento Bruno Covas, ampliação da rede de saúde e revitalização de espaços públicos.
O Executivo municipal credita o volume de emendas ao “bom relacionamento com parlamentares de diferentes partidos e crenças”.
Controle em debate
O uso de emendas Pix vem sendo questionado no STF, e mais de 6 mil repasses estão sem transparência adequada, segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). Em 2022, o TCE paulista já havia recomendado à prefeitura de Carapicuíba que melhorasse a prestação de contas — o que, segundo o tribunal, ainda não foi atendido de forma satisfatória.
A situação revela o risco de uso político-eleitoral de emendas parlamentares, sem fiscalização adequada e com retorno duvidoso à população.




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