Comunitarismo ou transferência de responsabilidade? Defesa Civil de Barra Mansa lança programa de voluntariado em áreas de risco
- Marcus Modesto
- 27 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
A Prefeitura de Barra Mansa anunciou a criação do chamado ‘Núcleo Voluntário de Proteção e Defesa Civil’, um projeto que pretende formar um banco de dados de moradores de áreas de risco geológico ou hidrológico para atuarem como “agentes de informação” da Defesa Civil. A proposta, que visa reforçar a prevenção e resposta a desastres naturais, levanta também dúvidas e críticas quanto à real capacidade do poder público de assumir o protagonismo que lhe cabe.
Segundo a Secretaria de Ordem Pública e a Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (Compdec), os voluntários não serão funcionários do governo, mas sim moradores capacitados para identificar sinais de perigo, orientar vizinhos e repassar informações à Defesa Civil. Em outras palavras: cidadãos transformados em sentinelas improvisadas em regiões onde o Estado tem falhado historicamente em garantir segurança e infraestrutura.
A iniciativa tem sido vendida como um esforço de aproximação entre governo e população. “É um programa construído com a comunidade”, afirmou o coordenador da Defesa Civil, João Vitor Ramos. No entanto, não é preciso muito esforço para perceber que o programa é, na prática, um reflexo da insuficiência do poder público em atender plenamente as regiões vulneráveis da cidade — e que, agora, tenta delegar parte dessa responsabilidade aos próprios moradores.
Voluntariado em áreas que pedem investimento
A proposta surge em um cenário em que muitos bairros de Barra Mansa convivem há anos com alagamentos recorrentes, deslizamentos e falta de obras estruturais. Nessas regiões, o Estado aparece com frequência apenas após a tragédia, com promessas de planos de contenção que raramente saem do papel.
Capacitar moradores para agir em emergências é importante — mas não pode substituir o papel central do governo em mapear riscos, prevenir desastres, realizar obras e manter estruturas básicas de drenagem e encostas. Ao criar um núcleo de voluntários, a gestão municipal parece reconhecer que não possui estrutura suficiente para responder, sozinha, às emergências que se repetem com cada vez mais intensidade.
O risco da banalização do “voluntariado institucional”
Transformar o cidadão em colaborador do Estado pode soar como participação social, mas corre o risco de escorregar para a precarização do serviço público. Afinal, quantos desses bairros têm sirenes funcionando, rotas de fuga sinalizadas, planos de contingência atualizados e exercícios de evacuação realizados com frequência?
A lógica do “faça você mesmo” — agora aplicada à prevenção de catástrofes — acende um alerta: será que o município está realmente investindo o suficiente em Defesa Civil, ou está apenas terceirizando parte de suas responsabilidades sob a maquiagem do engajamento comunitário?
Mais controle social, menos improviso
É preciso cuidado para que ações como essa não sirvam apenas para aliviar a pressão política sobre a prefeitura em épocas de chuvas fortes e manchetes trágicas. A sociedade civil organizada, os conselhos municipais e o Ministério Público devem acompanhar com atenção essa nova política: exigir transparência nos treinamentos, critérios claros para escolha dos voluntários e, principalmente, que o programa não substitua o investimento público efetivo nas áreas mais críticas da cidade.
O voluntariado é nobre, mas não pode ser usado como muleta para a ineficiência do Estado. Se há dinheiro para propaganda, deve haver dinheiro para drenagem, contenção de encostas, mapeamento de áreas de risco e reforço de equipes técnicas. No fim, quem mora na linha da tragédia não precisa só de capacitação — precisa de infraestrutura, presença constante do poder público e ações que previnam, de fato, que o pior aconteça.




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