CPMI do INSS: a guerra dos números e o espetáculo da desordem
- Marcus Modesto
- 26 de fev.
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A votação da CPMI do INSS, realizada nesta quinta-feira (26), expôs mais do que divergências políticas: revelou uma disputa aberta sobre o próprio resultado da deliberação. O que deveria ser um momento de afirmação institucional transformou-se numa batalha de versões sobre o número de votos — e num constrangimento público para o Congresso.
A comissão aprovou, em bloco, dezenas de requerimentos, entre eles a quebra de sigilos de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente da CPMI, Carlos Viana, declarou o resultado favorável com base em votação simbólica, afirmando que havia maioria suficiente para aprovar os pedidos.
Mas a proclamação do resultado detonou a crise. Parlamentares da base governista contestaram a contagem, sustentando que as imagens da sessão indicariam um placar diferente do anunciado. Segundo essa interpretação, o número de votos contrários seria maior do que o reconhecido oficialmente, o que poderia alterar o desfecho da deliberação.
A divergência deixou de ser técnica e virou confronto político. O deputado Paulo Pimenta acusou irregularidade na condução da votação e anunciou que pretende pedir a anulação do resultado ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre. Do outro lado, a presidência da comissão sustenta que o procedimento seguiu o regimento e que a votação simbólica não exige contagem nominal individualizada.
O episódio evidencia um problema maior: a incapacidade de lidar com derrotas políticas sem transformar cada votação em um campo de suspeição. Questionar o resultado é direito de qualquer parlamentar. Mas insinuar fraude sem decisão formal da Mesa ou sem prova técnica robusta corrói a credibilidade do próprio Parlamento.
A CPMI foi criada para investigar irregularidades no INSS. No entanto, o noticiário do dia foi dominado por uma disputa aritmética. A comissão que deveria discutir fraudes passou a discutir contagem de mãos levantadas. A política, mais uma vez, cedeu espaço ao espetáculo.
A democracia exige oposição vigilante e governo responsável. Exige também respeito às regras do jogo — inclusive quando o placar não agrada. Quando o debate sai do mérito e se fixa na guerra dos números, o que se instala não é fiscalização rigorosa, mas desordem institucional travestida de estratégia política.
Foto TV Senado




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