Crônica de uma confissão digital: o erro calculado de Eduardo Bolsonaro
- Marcus Modesto
- 11 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
No xadrez político-judicial que envolve a família Bolsonaro, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) parece ter movido uma peça desastrosa — e em público. Ao divulgar, com ar de triunfo, nas redes sociais, que teve papel direto na articulação que levou Donald Trump a impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, o filho “03” acabou fazendo aquilo que todo réu bem assessorado deveria evitar: produzir prova contra si mesmo.
Ministros do Supremo Tribunal Federal já veem o gesto como combustível para uma fogueira que só cresce. A postagem não apenas reforça a narrativa de tentativa de interferência em assuntos internos do Brasil por meio de pressões externas, como também escancara uma possível atuação coordenada para obstruir processos em curso na mais alta Corte do país — entre eles, os que envolvem o próprio Jair Bolsonaro e seus aliados mais fiéis.
A carta publicada por Trump em seu site, justificando o tarifaço como uma resposta à suposta “caça às bruxas” contra Bolsonaro, é o pano de fundo perfeito para o teatro montado em Washington. E Eduardo, com a arrogância de quem acha que está blindado, resolveu puxar os holofotes para si.
Mas há algo mais grave: o parlamentar, mesmo licenciado, não deixou de ser uma figura pública e com responsabilidades institucionais. E agora paira sobre ele uma nova suspeita — a de que estaria construindo, fora do país, uma narrativa de perseguição política para minar a legitimidade das instituições brasileiras. O Brasil, mais uma vez, é usado como peça de barganha num tabuleiro ideológico que pouco ou nada tem a ver com os interesses da população.
Se a Procuradoria-Geral da República decidir oferecer denúncia, o Supremo poderá abrir ação penal. E aí o roteiro pode mudar de tom: de influenciador político internacional a réu condenado por crime contra o Estado Democrático de Direito. A Lei da Ficha Limpa o aguarda na esquina das eleições de 2026 — e, se o STF assim decidir, a inelegibilidade será apenas o começo.
O que se vê, mais uma vez, é a repetição de um padrão: a confusão entre o interesse familiar e o interesse nacional. A tentativa de transformar questões jurídicas em palanque político não é nova, mas parece ter alcançado um novo patamar de imprudência. Eduardo não apenas alimentou uma crise diplomática com os Estados Unidos, como cavou — com as próprias mãos — um abismo jurídico do qual pode não sair tão cedo.
Se havia alguma dúvida sobre os riscos da velha tática de transformar redes sociais em tribunais da razão, o caso de Eduardo Bolsonaro agora serve como alerta: likes não garantem habeas corpus.




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