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EDITORIAL | A tragédia silenciosa da água que não chega

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 15 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

Marcus Modesto


Barra Mansa, cidade de mais de 170 mil habitantes no Sul Fluminense, carrega uma estatística que deveria causar vergonha e mobilização imediata em qualquer sociedade que se diz civilizada: 38,49% da população não tem acesso à água tratada. Estamos falando de mais de 66 mil pessoas — homens, mulheres, crianças — que vivem todos os dias sem o mínimo necessário para a vida.


Enquanto se anunciam obras, promessas e milhões em investimentos, a realidade nas casas das periferias é outra: baldes no lugar de torneiras, contaminação no lugar de potabilidade, doenças no lugar de dignidade. É o retrato de uma tragédia silenciosa, que não sai nos palanques nem nos outdoors oficiais.


O preço dessa omissão é altíssimo. Em 2023, o município registrou 54 internações por doenças de veiculação hídrica, com 11 crianças entre 0 e 4 anos entre os casos. Três morreram. Sim, três mortes causadas por falta de água tratada. Quantas mortes são necessárias para que se reconheça a gravidade desse problema? Quantos enterros silenciosos precisam acontecer para que alguém se responsabilize?


Do ponto de vista econômico, o custo também é inaceitável. Mais de R$ 22 mil foram gastos com internações evitáveis. Recursos que poderiam ser aplicados em infraestrutura preventiva, educação sanitária ou programas comunitários estão sendo drenados para remediar o que nunca deveria acontecer. Enquanto isso, 46,3% da água captada e tratada é desperdiçadaantes mesmo de chegar às casas. Uma cidade onde mais de um terço da população não tem acesso à água potável simplesmente não pode desperdiçar metade daquilo que produz.


O que se vê é um ciclo perverso: o Estado não chega onde é mais necessário, a população adoece, o sistema de saúde colapsa e os investimentos — quando existem — são insuficientes ou mal distribuídos. A falta de saneamento básico não é apenas um problema técnico ou financeiro. É um atestado de abandono. É a normalização da desigualdade. É a confirmação de que, para muitos gestores, certos cidadãos valem menos do que outros.


Barra Mansa, como tantas cidades brasileiras, vive uma epidemia invisível. E o pior: aceita isso com naturalidade, como se fosse normal que milhares de pessoas vivam sem água limpa em pleno 2025. Mas não é normal. Nunca foi.


Enquanto o saneamento continuar sendo tratado como luxo e não como direito, continuaremos a ver crianças doentes, famílias vulneráveis e dinheiro público escoando pelo ralo da incompetência. Saneamento é saúde. Saneamento é dignidade. E a falta dele é crime — ainda que ninguém esteja pagando por isso.



 
 
 

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