Editorial: Não estamos preparados para a nova realidade climática
- Marcus Modesto
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Por Marcus Modesto
As enchentes que se repetem com força cada vez maior escancaram uma verdade incômoda: as cidades brasileiras não estão preparadas para a nova realidade climática. O que antes era tratado como “evento extremo” hoje se tornou rotina. Alagamentos, deslizamentos, perdas materiais e, em muitos casos, vítimas fatais passaram a fazer parte do calendário urbano, especialmente nos períodos de chuva intensa.
A grande maioria dos municípios enfrenta o mesmo sufoco. Sistemas de drenagem antigos, rios assoreados, ocupação irregular de áreas de risco e a ausência de planejamento urbano sério criaram um cenário de vulnerabilidade crônica. Não se trata apenas de excesso de chuva, mas de décadas de omissão do poder público, que preferiu remendos emergenciais a políticas estruturantes.
O discurso oficial costuma se apoiar na ideia de que “choveu acima da média”, como se isso fosse suficiente para justificar o caos. Não é. As mudanças climáticas já não são projeção científica distante; são um fato concreto. Eventos extremos se tornaram mais frequentes e intensos, e insistir em modelos urbanos do século passado é condenar a população a conviver com tragédias anunciadas.
Falta prevenção, falta investimento contínuo e, sobretudo, falta prioridade. Obras de macrodrenagem, recuperação de rios, preservação de áreas verdes e fiscalização do uso do solo raramente rendem dividendos políticos imediatos. Em contrapartida, os prejuízos recaem sempre sobre os mesmos: moradores das periferias, famílias que vivem próximas a córregos e encostas, trabalhadores que perdem tudo em poucas horas de chuva.
É preciso romper com a lógica reativa, que só age depois do desastre. Planejar a cidade para o novo clima exige decisões impopulares, revisão de planos diretores, integração entre municípios e compromisso técnico acima de interesses eleitorais. Sem isso, cada novo temporal seguirá produzindo o mesmo roteiro de destruição, promessas e esquecimento.
O alerta está dado há anos. Ignorá-lo não é mais falta de informação, é escolha. E o custo dessa escolha continua sendo pago pela população, que assiste, ano após ano, às cidades afundarem na própria incapacidade de se adaptar ao futuro que já chegou.
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