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Expulsão histórica expõe contradições nas Forças Armadas pós-8 de janeiro

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 4 de jun.
  • 2 min de leitura

Pela primeira vez na história recente, a Marinha do Brasil expulsa formalmente um militar envolvido nos atos golpistas do dia 8 de janeiro de 2023. O suboficial da reserva Marco Antônio Braga Caldas, de 51 anos, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos de prisão, tornou-se o primeiro a perder a carreira militar em razão dos ataques aos prédios dos Três Poderes, em Brasília.


A decisão, tomada por um Conselho de Disciplina da própria Marinha, não é apenas um ato administrativo. É um sinal — tardio, mas necessário — de que as Forças Armadas não poderiam mais fechar os olhos diante de integrantes que atentaram contra o próprio regime democrático que juraram defender. Uma tentativa, também, de preservar a já combalida imagem institucional, colocada sob forte desgaste desde que militares da ativa e da reserva surgiram como personagens ativos dos ataques à democracia brasileira.


O suboficial, que serviu por três décadas na Marinha e estava na reserva desde 2021, embarcou voluntariamente rumo a Brasília, movido por convicções pessoais que, na prática, se transformaram em ação criminosa. Filmou, fotografou e participou dos atos de depredação dentro do Palácio do Planalto — provas que esvaziaram qualquer narrativa de “protesto pacífico” sustentada em sua defesa.


Entre a disciplina e a omissão


O episódio abre um precedente. Mas o fato de ser o primeiro caso quase dois anos depois dos ataques levanta perguntas incômodas. Quantos outros militares, da ativa ou da reserva, participaram direta ou indiretamente dos atos golpistas sem qualquer consequência até agora? Quantos ainda permanecem protegidos por uma cultura de conivência, silêncio e omissão dentro dos quartéis?


O próprio Ministério da Defesa já reconheceu que há ao menos 24 militares sob investigação, incluindo sete oficiais-generais — escalão mais alto da hierarquia. Mesmo assim, até o momento, Caldas é a única peça sacrificada no tabuleiro.


A nota oficial da Marinha, que justifica a expulsão “a bem da disciplina”, deixa claro: o temor não é tanto pela gravidade dos atos, mas pelo impacto interno de permitir que militares condenados sigam ostentando status, benefícios e vínculos com a instituição. É, antes de tudo, uma medida de autopreservação corporativa.


A farda não pode ser escudo para o crime


O caso expõe, de forma cristalina, o quanto setores das Forças Armadas precisaram ser empurrados pela Justiça e pela pressão social para romper com o silêncio. Por mais que a narrativa oficial insista na separação entre “instituição” e “indivíduos isolados”, a verdade é que a fronteira ficou turva demais após anos de flerte explícito com discursos autoritários.


A expulsão de Marco Antônio Braga Caldas não é um mérito institucional. É, antes, uma resposta tardia, forçada, e ainda insuficiente diante da gravidade dos fatos. Um gesto isolado não apaga a necessidade urgente de que as Forças Armadas revisem sua relação com a democracia, com os limites constitucionais e com os fantasmas que, há décadas, rondam seus quartéis.


Enquanto isso, a pergunta que paira no ar é inevitável: quantos Caldas ainda vestem farda no Brasil?

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