Fome tem cor, gênero e endereço no Brasil: mulheres negras seguem na linha de frente da insegurança alimentar
- Marcus Modesto
- 9 de mai.
- 3 min de leitura
Mesmo após a saída do Brasil do Mapa da Fome anunciada pela Organização das Nações Unidas (ONU), a realidade dentro de milhares de lares brasileiros continua distante do discurso oficial de superação da miséria. Um estudo divulgado pela organização Fian Brasil escancara que a fome no país ainda possui recorte racial, territorial e de gênero profundamente desigual.
A pesquisa As faces da desigualdade: raça, sexo e alimentação no Brasil (2017-2023), elaborada pelas pesquisadoras Veruska Prado e Rute Costa, revela que os lares chefiados por mulheres negras são os mais atingidos pela insegurança alimentar grave, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Os números desmontam qualquer tentativa de comemoração apressada. Enquanto domicílios chefiados por homens brancos registram 15,7% de insegurança alimentar, os lares liderados por mulheres negras alcançam alarmantes 38,5%. Em algumas regiões do país, o cenário é ainda mais devastador: no Norte e no Nordeste, quase metade das casas chefiadas por mulheres negras convivem com algum grau de insegurança alimentar.
A conclusão é inevitável: a fome no Brasil não é distribuída de maneira igual. Ela segue o mapa histórico da desigualdade social brasileira.
O estudo evidencia que ser mulher, negra e moradora de regiões historicamente negligenciadas pelo poder público representa uma combinação perversa de vulnerabilidades. As próprias autoras afirmam que “ser mulher e negra significou maior convivência com as desigualdades e injustiças alimentares”.
O dado talvez mais cruel do levantamento mostra que mulheres negras com emprego formal enfrentam índices de fome semelhantes aos de homens brancos que vivem da informalidade. Na prática, o mercado de trabalho continua reproduzindo desigualdades estruturais, mesmo entre trabalhadores com carteira assinada.
O problema vai além da renda. O levantamento aponta que, mesmo entre empregadores, há diferença racial no acesso à segurança alimentar. Mulheres brancas aparecem com os melhores índices de estabilidade alimentar (95,2%), enquanto homens negros registram os piores resultados dentro do mesmo grupo.
A constatação desmonta o velho argumento de que apenas esforço individual seria suficiente para romper ciclos de pobreza. O estudo deixa claro que raça e gênero continuam determinando oportunidades, acesso à renda e qualidade de vida no Brasil.
As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam melhores indicadores de segurança alimentar, principalmente em lares chefiados por pessoas brancas. Já Norte e Nordeste seguem concentrando os piores índices, reforçando décadas de abandono estrutural e ausência de políticas públicas permanentes.
Outro ponto alarmante é a situação do campo. A insegurança alimentar continua mais intensa nas áreas rurais do que nas urbanas, mostrando que a produção agrícola brasileira, recordista em exportações, não se traduz necessariamente em comida no prato de quem vive e trabalha na terra.
Para a pesquisadora Rute Costa, professora do Instituto de Alimentação e Nutrição da UFRJ, os números comprovam que a segurança alimentar depende diretamente de políticas públicas robustas.
Segundo ela, programas sociais e investimentos estatais tiveram impacto direto na redução da fome nos últimos anos. A retomada do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e o fortalecimento do Bolsa Família aparecem como fatores importantes na melhora dos indicadores.
Ainda assim, o estudo funciona como um alerta contra narrativas triunfalistas. Embora o Brasil tenha reduzido a insegurança alimentar grave de 15,5% em 2022 para 4,1% em 2023, milhões de brasileiros continuam vivendo sob insegurança alimentar cotidiana, especialmente mulheres negras das periferias urbanas e das regiões mais pobres do país.
A saída do Mapa da Fome é um marco relevante, mas os dados mostram que o país ainda está longe de enfrentar suas desigualdades históricas. A fome diminuiu, mas continua escolhendo vítimas preferenciais.




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