Gotham Fluminense: quando a política parece roteiro de ficção
- Marcus Modesto
- há 6 dias
- 2 min de leitura
A cena registrada no plenário do Supremo Tribunal Federal nesta quarta-feira (8) extrapolou o juridiquês e mergulhou no universo da cultura pop. Ao defender a realização de eleição direta para o governo do Rio de Janeiro, o advogado do PSD, Thiago Fernandes Boverio, recorreu a uma metáfora provocativa: comparou o estado à sombria Gotham City, palco das histórias do Batman.
Na analogia, Boverio foi direto: em uma Gotham dominada pelo caos, seria mais fácil eleger o Coringa do que o herói. A frase, forte e carregada de simbolismo, serviu como alerta sobre os riscos que, segundo ele e outros advogados do partido, rondam uma eventual eleição indireta — especialmente a possibilidade de interferência do crime organizado no processo político.
O argumento ganhou peso ao ser associado a episódios recentes da política fluminense, como o caso do ex-deputado conhecido como TH Joias, apontado por investigações como ligado ao Comando Vermelho. Para a defesa, um cenário de votação restrita à Assembleia poderia abrir brechas para pressões e articulações fora do controle popular.
No centro da disputa está a forma de escolha do próximo governador, que cumprirá um mandato-tampão até 2027. O julgamento no STF analisa duas ações movidas pelo PSD — a ADI 7942, sob relatoria do ministro Luiz Fux, e a RCL 92644, relatada por Cristiano Zanin — ambas questionando se a eleição deve ser direta, com participação dos eleitores, ou indireta, decidida pelos deputados estaduais.
A instabilidade política que levou a esse impasse é recente e profunda. O então governador Cláudio Castro renunciou ao cargo na véspera de ter seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, no processo que ficou conhecido como “Caso Ceperj”. Desde então, o comando do estado está nas mãos do presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto.
A crise se agrava com a ausência de um vice-governador. Thiago Pampolha deixou o cargo para assumir uma vaga no Tribunal de Contas, enquanto o então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, não pôde assumir após ser preso e também ter o mandato cassado.
Diante desse cenário, a metáfora de Gotham deixa de ser apenas retórica e passa a ecoar como um retrato — exagerado, mas simbólico — de um estado mergulhado em incertezas institucionais, onde a escolha do próximo governante se tornou uma disputa não apenas jurídica, mas também política e moral.




Comentários