Julgamento de Bolsonaro expõe disputa pela anistia e revela antecipação da corrida eleitoral de 2026
- Marcus Modesto
- 4 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Os dois primeiros dias do julgamento de Jair Bolsonaro e outros sete réus pela trama golpista de 8 de janeiro coincidiram com uma nova ofensiva em Brasília pela aprovação de uma anistia. A movimentação, que envolve diretamente os três Poderes, expôs divergências profundas dentro do Congresso, do Supremo Tribunal Federal (STF) e até do Palácio do Planalto — e já está sendo lida como peça-chave no tabuleiro das eleições de 2026.
Enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defende um projeto restrito que apenas reduza penas sem alcançar os principais articuladores dos ataques, líderes do centrão e da oposição afirmam ter base suficiente para aprovar uma anistia ampla, incluindo Bolsonaro. O número mágico apresentado é de 300 votos na Câmara, sustentado pelo avanço das negociações lideradas por Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo.
O protagonismo de Tarcísio não é casual: sua presença em Brasília nesta semana foi interpretada como tentativa de consolidar sua pré-candidatura presidencial, amarrando o centrão ao seu projeto e garantindo fidelidade do bolsonarismo. Ao se apresentar como fiador da anistia, ele envia recados claros tanto ao mercado político quanto à militância da direita radical.
Mas, mesmo que a anistia avance no Congresso, dois obstáculos permanecem: a sanção presidencial — que Lula já prometeu vetar — e a revisão pelo STF, que pode ser provocado a declarar a inconstitucionalidade do texto. Aqui reside a tensão maior: setores do Supremo consideram a anistia um risco de impunidade, mas a declaração recente do presidente da corte, Luís Roberto Barroso, de que o tema poderia se tornar apenas “uma questão política” após o julgamento, foi vista nos bastidores como um erro de cálculo que deu fôlego extra ao bolsonarismo.
No Legislativo, a pressão cresce sobre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que admitiu a possibilidade de pautar a votação logo após o término do julgamento, previsto para 12 de setembro. O movimento reforça a estratégia de setores conservadores de transformar o processo judicial em combustível político, em vez de lição institucional.
Do lado governista, a palavra de ordem é mobilizar a opinião pública. O discurso é simples e direto: anistia, neste caso, é sinônimo de impunidade. Mas, entre os próprios petistas, há a percepção de que apenas a resistência no Senado e no STF não será suficiente para conter a pressão organizada pelo bolsonarismo.
Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do partido na Câmara, reconheceu que Tarcísio “matou no peito” a articulação e deu novo fôlego ao movimento. “A coisa ficou séria”, admitiu, em referência à mudança de intensidade no lobby pela anistia.
Na prática, o que se observa é um jogo duplo: de um lado, Bolsonaro sentado no banco dos réus; de outro, seus aliados já utilizando o julgamento como plataforma para reposicionamento político e antecipação da campanha de 2026. O risco é claro: que a narrativa da “perseguição” sirva de combustível para transformar um processo criminal em trampolim eleitoral.
Com o adiamento da votação para depois do julgamento, o país entra em mais um ciclo de instabilidade. A anistia deixou de ser apenas uma pauta de bastidores e se tornou a principal arena de disputa política do momento. O que está em jogo não é apenas o destino dos réus do 8 de janeiro, mas a capacidade das instituições de resistir à pressão e impedir que o crime contra a democracia seja transformado em moeda eleitoral.




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