Legado de Eufrásia Teixeira Leite em risco: imóveis históricos de Vassouras enfrentam abandono e descaso
- Marcus Modesto
- 15 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Quase um século após a morte de Eufrásia Teixeira Leite, o imenso legado deixado pela pioneira e filantropa vassourense atravessa um momento crítico. Imóveis erguidos a partir de sua fortuna para fins sociais e educacionais em Vassouras, no coração do Vale do Café, hoje estão desativados, deteriorados e à mercê do abandono, num claro contraste com o ideal de progresso e amparo à comunidade que norteou suas ações em vida.
Eufrásia, que fez história ao operar com sucesso na Bolsa de Valores de Paris no século XIX, retornou sua riqueza para a cidade natal com a missão de promover saúde, educação e inclusão social. Como resultado, foram criadas instituições como o Hospital Eufrásia, o antigo Colégio Regina Coeli e o prédio do SENAI — todos marcos da modernização e cuidado com os mais vulneráveis em sua época.
No entanto, a situação atual dos prédios herdados por Vassouras revela o descompasso entre o passado de generosidade e o presente de negligência. Diante desse cenário, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio da Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo Vassouras, instaurou um inquérito civil para investigar a má conservação dos imóveis e possíveis falhas de gestão dos responsáveis legais pelo patrimônio.
A investigação recai sobre a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, atual detentora da administração dos bens, além da Prefeitura Municipal e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que também têm obrigações legais e patrimoniais sobre os prédios. O MP busca apurar eventuais omissões e assegurar que os imóveis cumpram a função social estabelecida em testamento por Eufrásia.
A iniciativa também tem um componente de urgência: o estado de degradação das construções pode comprometer não apenas a integridade física dos prédios, mas também a continuidade do legado cultural de uma das mulheres mais extraordinárias da história brasileira.
A recuperação dos espaços deixados por Eufrásia não se trata apenas de reparo arquitetônico, mas de resgate histórico e reconhecimento de uma trajetória que desafiou os padrões de seu tempo. Reduzir à ruína o que foi concebido como instrumento de inclusão é, de certo modo, apagar a memória de uma mulher que sonhou com um futuro melhor para sua cidade.
O inquérito agora reacende um debate fundamental: como uma sociedade cuida do seu patrimônio quando ele carrega, junto aos tijolos, a marca do altruísmo e da transformação social? Para Vassouras, o desafio é mais do que restaurar prédios: é restaurar um compromisso com sua própria identidade.
Fonte Ricardo Villa Verde/ Agenda do Poder




Comentários