Militares alertam governo sobre risco geopolítico na Margem Equatorial
- Marcus Modesto
- 5 de jan.
- 3 min de leitura
Chefes das Forças Armadas brasileiras levaram ao Ministério da Defesa e ao Palácio do Planalto uma avaliação classificada como delicada sobre o novo tabuleiro geopolítico da América do Sul. A análise, revelada pelo colunista Tales Faria, do Correio da Manhã, aponta que, após a invasão da Venezuela e a retirada de Nicolás Maduro do poder, os Estados Unidos podem direcionar sua estratégia para o controle de áreas estratégicas de produção de petróleo, incluindo a Margem Equatorial brasileira.
Na leitura dos militares, o Brasil segue atrasado na consolidação de uma presença econômica e estratégica efetiva nessa região. O receio é que a demora em avançar na ocupação produtiva da Margem Equatorial estimule a atuação de potências estrangeiras interessadas nos recursos naturais ali existentes — não apenas Washington.
Sinal vermelho após declarações de Trump
O alerta ganhou força depois da primeira entrevista coletiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizada no sábado, dia 3. Ao comentar a intervenção na Venezuela e a captura de Maduro, Trump teria deixado claro um endurecimento da política externa americana na América Latina, interpretação compartilhada por setores do governo brasileiro.
Segundo relatos levados ao Planalto, a preocupação não tem viés ideológico. As Forças Armadas do Brasil mantêm uma relação histórica de cooperação com seus pares norte-americanos. O temor está concentrado nas implicações geopolíticas e econômicas do novo discurso adotado pela Casa Branca.
Trump destacou que sua administração passou a priorizar o acesso a fontes de energia, sobretudo petróleo, além de minerais considerados estratégicos para a economia e a defesa dos Estados Unidos.
Doutrina Monroe volta ao centro da estratégia
Durante a entrevista, Trump afirmou explicitamente que retomou a Doutrina Monroe como eixo da política externa para a América Latina. Criado em 1823, o conceito estabelece o hemisfério ocidental como zona de interesse prioritário dos EUA, afastando a influência de outras potências globais.
Para militares brasileiros, a menção direta à doutrina não é simbólica. Ela sinaliza uma postura mais assertiva de Washington na defesa de seus interesses estratégicos, inclusive com o uso de pressão política, diplomática ou ações indiretas.
Petróleo e minerais estratégicos entram no radar
Nesse contexto, a Margem Equatorial surge como um dos principais ativos do Brasil. Estimativas citadas por integrantes das Forças Armadas indicam que a área pode concentrar até 30 bilhões de barris de petróleo, volume suficiente para despertar forte disputa internacional.
Além disso, regiões da Amazônia próximas às fronteiras com Venezuela e Colômbia são apontadas como ricas em Minerais Críticos e Estratégicos (MCEs), fundamentais para tecnologias de ponta, como veículos elétricos, energia renovável, sistemas digitais e aplicações militares.
Lítio, terras raras, grafite e nióbio figuram entre os recursos mais cobiçados, em razão do risco de escassez global e da concentração da produção em poucos países.
Colômbia entra na linha de confronto
Questionado sobre a Colômbia, Trump adotou um discurso ainda mais agressivo ao se referir ao presidente Gustavo Petro. Em tom de ameaça, acusou o país de ser fonte de produção de cocaína destinada aos Estados Unidos e afirmou que Petro “pode ser o próximo”.
As declarações foram interpretadas em Brasília como um indicativo de que Washington pode ampliar a pressão política e militar sobre governos sul-americanos que contrariem seus interesses estratégicos.
Repercussão imediata no Planalto
As falas de Trump provocaram reação rápida no governo brasileiro. Em reunião on-line realizada no sábado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou preocupação com a segurança da fronteira com a Venezuela e com o discurso adotado pelos Estados Unidos em relação à Colômbia e a Cuba.
Na mesma entrevista, Trump citou Havana de forma direta e insinuou que o governo cubano deveria se preocupar com os rumos da política americana.
Na avaliação de Lula, esse conjunto de declarações revela desprezo por acordos multilaterais e pelas normas internacionais. Para o presidente brasileiro, a postura do líder norte-americano representa um fator de instabilidade global, especialmente para países detentores de ativos estratégicos relevantes, como o Brasil. Em conversas reservadas, Lula tem classificado Trump como um risco à ordem internacional.




Comentários