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Natal marcado por mortes de mulheres escancara falência da proteção no Rio

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 26 de dez de 2025
  • 3 min de leitura

O feriado de Natal, tradicionalmente associado à celebração e à convivência familiar, foi manchado por uma sequência brutal de mortes de mulheres no estado do Rio de Janeiro. Três mulheres foram assassinadas em um único dia, nesta quinta-feira (25), em diferentes regiões — Zona Oeste da capital, Costa Verde e Centro do Rio — em crimes investigados como feminicídio ou violência letal associada à criminalidade urbana. O recorte geográfico distinto não dilui o problema; ao contrário, revela sua dimensão estrutural.


Violência doméstica que termina em morte


Em Inhoaíba, na Zona Oeste do Rio, Letícia de Sousa Braga foi atacada a facadas pelo próprio companheiro dentro de casa. Mesmo socorrida e levada a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ela não resistiu aos ferimentos. O agressor foi contido por vizinhos, também ficou ferido e recebeu atendimento no Hospital Municipal Rocha Faria, onde permanece sob custódia.


O caso foi inicialmente registrado na 35ª DP (Campo Grande) e depois encaminhado à Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). O crime reforça um padrão recorrente e conhecido: a casa, que deveria ser espaço de proteção, segue sendo o principal palco da violência contra mulheres.


Mangaratiba: execução e fuga


Ainda no dia 25, Thamires Galvão Marques da Silva foi morta a tiros na Praia do Saco, em Mangaratiba, na Costa Verde Fluminense. O principal suspeito é o companheiro da vítima, que fugiu logo após o crime. Policiais do 33º BPM (Angra dos Reis) encontraram Thamires já sem vida ao chegarem ao local.


A investigação está sob responsabilidade da 165ª DP (Mangaratiba), que realiza diligências para esclarecer as circunstâncias e localizar o suspeito. Mais uma vez, a dinâmica do crime aponta para a violência de gênero como eixo central da tragédia.


Crime urbano também vitima mulheres


Além dos casos classificados como feminicídio, a violência urbana fez mais uma vítima. Sabina Saron Camilo Mates foi esfaqueada durante um assalto dentro de um BRT, na região de Bonsucesso, Zona Norte do Rio. A mulher chegou a ser socorrida por bombeiros, mas morreu antes de chegar ao hospital. Um outro passageiro também ficou ferido.


A Delegacia de Homicídios da Capital conduz as investigações para identificar os autores. O caso evidencia que, além da violência doméstica, mulheres seguem vulneráveis em espaços públicos e no transporte coletivo, sem proteção adequada do Estado.


Um problema estrutural e persistente


As mortes registradas no Natal não são episódios isolados. Elas se inserem em um cenário crônico de violência contra mulheres no estado. Dados do Dossiê Mulher 2025 revelam que, apenas em 2024, 107 mulheres foram vítimas de feminicídio no Rio de Janeiro. Quase dois terços dos crimes e das tentativas ocorreram dentro de casa.


O levantamento expõe ainda um retrato social devastador: 71 das vítimas eram mães, 33 tinham filhos menores de idade e 13 foram assassinadas na presença dos próprios filhos. Mais da metade dessas mulheres já havia sofrido violência anteriormente, mas não chegou a registrar denúncia formal, muitas vezes por medo, dependência econômica ou descrença na proteção institucional.


Silêncio, falhas e repetição


A repetição dos crimes expõe falhas graves nas políticas de prevenção, na rede de acolhimento e na capacidade do Estado de agir antes que a violência chegue ao ponto irreversível. O Natal de 2025 entra para as estatísticas não como exceção, mas como mais um capítulo de uma tragédia anunciada.


Enquanto medidas efetivas não saem do papel e a proteção às mulheres segue insuficiente, o calendário avança e os números crescem. No Rio de Janeiro, a violência de gênero continua sendo tratada como dado estatístico — quando deveria ser enfrentada como emergência social.



 
 
 

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