Negacionismo e revisionismo: fala de Jair Renan na Câmara de Balneário Camboriú escancara desprezo pela memória democrática
- Marcus Modesto
- 15 de mai. de 2025
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Durante uma sessão da Câmara Municipal de Balneário Camboriú, realizada nesta quarta-feira (14), o vereador Jair Renan Bolsonaro (PL) protagonizou um episódio preocupante ao relativizar o golpe militar de 1964 e exaltar a ditadura como “a melhor época do Brasil” para pessoas mais velhas. A declaração foi feita durante a discussão de um projeto que propõe a criação do Dia Municipal da Democracia, em homenagem a Higino João Pio, ex-prefeito da cidade, assassinado durante o regime militar.
O projeto, de autoria do vereador Eduardo Zanatta (PT), propõe o dia 3 de março — data da morte de Higino — como marco da efeméride. Jair Renan não apenas se opôs à proposta, como demonstrou total desprezo pela simbologia histórica e pelas vítimas do período mais sombrio da República.
— Que golpe foi esse em 64? O povo saiu às ruas pedindo que os militares assumissem o poder com medo do comunismo entrar no Brasil — disse o vereador, ecoando uma narrativa revisionista desacreditada por historiadores, cientistas políticos e pelo próprio relatório da Comissão Nacional da Verdade.
A tentativa de reabilitar o regime militar — responsável por mais de duas décadas de censura, repressão política, tortura e assassinatos — não é apenas uma afronta à memória democrática, mas um perigoso incentivo ao negacionismo histórico. O vereador ainda minimizou a violência do Estado ao questionar a escolha do dia da morte do homenageado como símbolo democrático, em tom de ironia:
— É a primeira vez que vejo uma homenagem no dia da morte de uma pessoa. Geralmente é no dia do aniversário, ou no dia que ela fez alguma coisa de importante.
O despreparo e a insensibilidade de Jair Renan ficaram ainda mais evidentes quando ele reduziu o projeto a uma suposta “motivação ideológica do PT”, como se reconhecer vítimas da ditadura fosse um ato partidário, e não um dever ético de qualquer democracia.
— Sabemos que tudo que vem do PT é de cunho ideológico — disse, em referência ao autor da proposta.
Ao sustentar que a maioria dos idosos considera a ditadura “a melhor época do Brasil”, o vereador recorreu a um argumento anedótico, típico de quem dispensa os fatos em nome da conveniência política. Dados e depoimentos oficiais sobre torturas, censura e perseguições são tratados como meras opiniões em sua retórica rasa e descompromissada com a verdade.
O episódio não é isolado. Ele revela uma tendência perigosa de figuras públicas que ocupam cargos legislativos e usam da tribuna para propagar desinformação histórica e atacar princípios constitucionais. A fala de Jair Renan não é só politicamente irresponsável — é também um desrespeito à memória de milhares de vítimas da ditadura, à democracia conquistada com sacrifício e à sociedade que o elegeu para representá-la com seriedade.
A reação da Câmara e da sociedade civil a esse tipo de discurso é fundamental. O negacionismo histórico, quando naturalizado, abre espaço para a erosão dos valores democráticos. E, como a história ensina, toda vez que a democracia foi desprezada, a liberdade pagou um preço alto demais.




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