Nova troca de mensagens revela que Bolsonaro ignorou apelos para condenar invasão de 8 de janeiro em tempo real
- Marcus Modesto
- 15 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Uma troca de mensagens inédita obtida pela Polícia Federal revela que o ex-presidente Jair Bolsonaro decidiu não se manifestar publicamente contra os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, enquanto os atos ainda estavam em andamento. O conteúdo foi extraído do celular do tenente-coronel Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro, e faz parte de um acervo apreendido pela PF em uma operação de 2023. As informações foram publicadas pelo colunista Aguirre Talento, do portal UOL.
Às 16h36 daquele domingo, enquanto os invasores ainda depredavam os prédios públicos na capital federal, Mauro Cid recebeu uma mensagem em tom de alerta do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo Filho, neto do ex-presidente da ditadura João Figueiredo. Ele pedia que Bolsonaro se posicionasse imediatamente.
“Estupidez sem tamanho. O presidente Bolsonaro precisa se manifestar contra isso AGORA. Pelo amor de Deus. Eu estou no ar na Jovem Pan”, escreveu Figueiredo, preocupado com o impacto político da omissão diante das cenas de destruição.
Naquele momento, Bolsonaro estava nos Estados Unidos, para onde havia viajado dois dias antes da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, evitando a cerimônia de transmissão da faixa. Investigações da PF indicam que, antes de deixar o Brasil, Bolsonaro buscou apoio entre as Forças Armadas para impedir a posse de Lula.
A resposta de Cid à mensagem de Figueiredo confirma que Bolsonaro optou pelo silêncio. “Não vai [se manifestar]… Acabei de falar com ele”, escreveu o tenente-coronel. E completou: “Isso já deixou de ser por ele. O povo já não aguenta mais tanta arbitrariedade.”
A postura do ex-presidente naquele momento tem sido alvo de questionamentos por parte das autoridades. Bolsonaro só se pronunciou publicamente às 21h17, quando os atos já haviam sido contidos e o governo federal decretado intervenção na segurança do Distrito Federal. Na ocasião, o ex-presidente escreveu que “depredações e invasões de prédios públicos” fugiam à legalidade, mas comparou os ataques ao que chamou de “manifestações da esquerda” em 2013 e 2017.
As mensagens entre Cid e Figueiredo fazem parte dos 77 gigabytes de dados contidos no aparelho do militar, que incluía mais de 158 mil conversas trocadas via WhatsApp. A apreensão do material ocorreu durante apuração sobre fraudes em certificados de vacinação. A PF tem revelado partes do conteúdo à medida que novas frentes de investigação avançam.
Procurado pelo UOL, Paulo Figueiredo confirmou o teor da conversa com Cid e reafirmou sua oposição aos atos golpistas. “O diálogo corrobora o meu posicionamento que é público: o 8 de janeiro foi uma armadilha na qual alguns caíram de forma estúpida. O presidente Bolsonaro, felizmente, ouviu o meu conselho e reviu sua posição, condenando os atos em seguida”, afirmou.
Figueiredo, no entanto, criticou sua inclusão entre os denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR). “Se a PF tinha acesso a estes diálogos e sabia da minha posição, por que aparentemente me indiciaram sem base alguma? É claro que o motivo é político”, disse.
A defesa de Bolsonaro declarou que não teve acesso aos diálogos revelados, mas reiterou que o ex-presidente condenou os ataques naquela mesma noite.
Bolsonaro é atualmente réu no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado. Segundo a acusação da PGR, as ações de 8 de janeiro foram resultado direto de articulações golpistas no final do mandato do ex-presidente. Paulo Figueiredo também está entre os denunciados por suposta ligação com os atos.




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