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O remédio proibido de Bolsonaro: proxalutamida expõe descaso com a vida durante a pandemia

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 27 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

As mensagens extraídas do celular do tenente-coronel Mauro Cid, reveladas pela Polícia Federal e publicadas pelo Estadão, escancaram um dos capítulos mais sombrios da gestão de Jair Bolsonaro na pandemia. O então presidente da República não apenas propagou desinformação em rede nacional: ele autorizou pessoalmente a distribuição da proxalutamida, uma droga experimental sem registro em nenhum órgão regulador internacional, tratada por seus aliados como um “milagre” contra a covid-19.


O medicamento, fabricado na China para testes contra câncer de próstata, jamais foi aprovado para qualquer tratamento. No Brasil, a Anvisa suspendeu pesquisas após identificar irregularidades em sua importação e aplicação. Ainda assim, a droga foi tratada no Planalto como arma política e distribuída entre pastores, empresários, militares e até familiares de artistas.


Em uma das conversas de 2021, Mauro Cid pergunta a Bolsonaro se poderia enviar o fármaco para um paciente internado: “Queria saber se eu podia mandar uma proxa pra ele tomar lá”. O presidente responde sem hesitar: “Mande a proxalutamida”.


A ciência ignorada


Não havia qualquer comprovação da eficácia do medicamento contra a covid-19. Ao contrário: os próprios protocolos internacionais reforçavam os riscos de seu uso indiscriminado. Ainda assim, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, já fora da pasta, estimulou Bolsonaro a defender publicamente a substância em suas transmissões online.


O episódio mostra como a gestão da pandemia foi pautada mais por conveniência política do que pela ciência. Ao mesmo tempo em que o Brasil enterrava centenas de milhares de vítimas da covid-19, o Planalto tratava a doença como laboratório eleitoral, distribuindo uma droga que, segundo a legislação brasileira, poderia enquadrar-se como crime grave, com pena de até 15 anos de prisão.


A engrenagem do negacionismo


As mensagens revelam também o alcance dessa rede paralela de desinformação. O medicamento foi repassado a líderes religiosos como R. R. Soares, empresários sertanejos, familiares de artistas e até parlamentares, como confirmou o deputado Luciano Bivar. Tudo isso embalado em uma narrativa de “cura secreta” que, em vez de salvar vidas, reforçou a descrença nas vacinas e nas medidas de prevenção.


Enquanto o país enfrentava a falta de oxigênio em Manaus e hospitais colapsados, aliados de Bolsonaro celebravam a proxalutamida como “levanta defunto”. Um deboche com as famílias enlutadas e um símbolo cruel da política negacionista que marcou aquele período.


A conta que ainda não chegou


A Polícia Federal investiga o caso na operação Duplo Cego, que apura crimes de contrabando, falsidade ideológica e distribuição ilegal de medicamentos. O médico Flávio Cadegiani, responsável por pesquisas irregulares com a substância, tenta se isentar de responsabilidade, enquanto os diálogos de Cid reforçam a participação direta de Bolsonaro na liberação e no envio do fármaco.


Quase quatro anos depois, o que resta é a sensação de impunidade. O Brasil segue com cicatrizes abertas da pandemia, e os responsáveis por transformar a saúde pública em campo de experimentação política continuam à espera de julgamento.


A proxalutamida pode nunca ter funcionado contra a covid-19, mas serviu perfeitamente como retrato do desprezo pela ciência, pela ética e pela vida que pautou a condução do governo Bolsonaro na maior crise sanitária da história recente.



 
 
 

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