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OPINIÃO | Transposição ferroviária: a obra que deixou o pedestre para trás

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 1 de jul.
  • 2 min de leitura


Por Marcus Modesto


A política tem dessas ironias que nenhum roteirista seria capaz de imaginar.


Na última terça-feira ,Barra Mansa assistiu à inauguração oficial do tão esperado viaduto da transposição ferroviária. Autoridades alinhadas, sorrisos ensaiados, fotos para as redes sociais, discursos inflamados e uma verdadeira disputa para saber quem era o “pai da criança”. Prefeito, deputados, representantes do governo federal, lideranças políticas. Todos reivindicando sua parcela de mérito por uma obra aguardada há décadas.


Mas enquanto o cerimonial acontecia e os microfones eram disputados, a realidade tratava de interromper a festa.


Uma jovem estudante foi atropelada por um trem.


O fato, por si só, já seria suficiente para provocar reflexão. Mas o que torna essa coincidência ainda mais chocante é que ela escancara uma falha que moradores apontam há muito tempo: a obra foi pensada para os veículos, não para as pessoas.


O trânsito dos automóveis ganhou uma solução. Os caminhões ganharam uma solução. Os ônibus ganharam uma solução.


E os pedestres?


Continuam enfrentando o mesmo desafio de sempre: atravessar uma linha férrea ativa sem a estrutura adequada de segurança.


Durante anos, discutiu-se o impacto da ferrovia na mobilidade urbana. Falou-se em desenvolvimento, integração e modernização. Gastaram-se milhões de reais. Foram produzidos projetos, estudos, relatórios e apresentações técnicas.


Mas uma pergunta simples continua sem resposta:


Cadê a passagem subterrânea para pedestres?


Cadê a obra complementar que garantiria uma travessia segura para estudantes, trabalhadores, idosos e moradores que cruzam aquela região diariamente?


Cadê a preocupação com quem não está dentro de um carro?


O atropelamento da estudante não pode ser tratado apenas como mais uma estatística ou uma fatalidade inevitável. Fatalidade é um raio cair em céu azul. Quando a população é obrigada a conviver diariamente com situações de risco porque a infraestrutura não contempla sua realidade, estamos diante de um problema de planejamento.


O episódio ocorrido justamente no dia da inauguração da obra funciona como uma metáfora cruel. Enquanto os discursos exaltavam o progresso, a cidade era lembrada de que ainda existe uma enorme distância entre o projeto celebrado nos palanques e a vida real enfrentada pelos moradores.


Nenhuma autoridade gosta de ouvir críticas em dias de festa. Mas obras públicas não existem para gerar aplausos de políticos. Existem para atender às necessidades da população.


O viaduto está pronto. As placas serão inauguradas. As fotografias ficarão registradas. Os discursos serão esquecidos.


Já a pergunta continuará ecoando pelos bairros cortados pela ferrovia:


Se havia dinheiro para a transposição dos veículos, por que não houve prioridade para garantir a segurança dos pedestres?


Porque, ao que parece, na hora de projetar a obra, o cidadão que anda a pé ficou parado do outro lado dos trilhos.

Foto Arquivo



 
 
 

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