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OPINIÃO | Quando o berço da democracia começa a flertar com o autoritarismo

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 21 de jul.
  • 2 min de leitura


Por Marcus Modesto


Durante décadas, os Estados Unidos foram apresentados ao mundo como o grande símbolo da democracia liberal, da liberdade de imprensa e da defesa incondicional da liberdade de expressão. Era o país que criticava governos autoritários por perseguirem jornalistas, intimidarem opositores e tentarem controlar a informação.


Hoje, esse discurso perde força diante das atitudes do próprio presidente Donald Trump.


O que se vê é um chefe de Estado que transformou a imprensa em inimiga permanente. Processos judiciais contra veículos de comunicação, ameaças constantes, tentativas de restringir o acesso de jornalistas à Casa Branca e investigações para descobrir fontes confidenciais revelam um ambiente preocupante para qualquer democracia madura.


Quando um governo utiliza o aparato estatal para pressionar jornalistas e identificar quem fornece informações de interesse público, o alvo não é apenas a imprensa. É o direito da sociedade de saber o que acontece nos bastidores do poder.


Ao mesmo tempo, Trump mantém um discurso que questiona repetidamente a credibilidade do sistema eleitoral americano, mesmo após diversas investigações e decisões judiciais não confirmarem as alegações de fraude que ele continua repetindo. Alimentar desconfiança permanente nas instituições talvez seja uma das formas mais perigosas de enfraquecer uma democracia.


Na política migratória, o endurecimento extremo, as deportações aceleradas e os conflitos frequentes com decisões judiciais também levantam dúvidas sobre o respeito ao devido processo legal, um dos pilares históricos do Estado de Direito. Diversas organizações internacionais de direitos humanos têm alertado para retrocessos nas garantias individuais e na proteção de direitos fundamentais.


Outro aspecto preocupante é a crescente personalização do poder. Em vez de fortalecer instituições, Trump frequentemente concentra o debate em torno de sua própria figura, tratando qualquer crítica como perseguição política e qualquer investigação como conspiração. Democracias sólidas sobrevivem porque suas instituições são maiores que seus governantes. Quando um presidente passa a agir como se fosse maior do que elas, o equilíbrio democrático entra em risco.


É irônico que justamente os Estados Unidos, que durante tantos anos apontaram o dedo para governos acusados de autoritarismo ao redor do mundo, hoje sejam alvo de críticas internacionais por atitudes semelhantes. O país que ensinava democracia agora precisa defendê-la dentro de casa.


Democracia não significa apenas realizar eleições. Democracia exige respeito às instituições, independência do Judiciário, liberdade de imprensa, proteção às minorias, transparência e disposição para aceitar críticas. Quando esses pilares começam a ser tratados como obstáculos ao poder, o sinal de alerta precisa ser acionado.


Donald Trump foi eleito legitimamente e possui o direito de governar conforme sua plataforma política. O que não pode ser normalizado é qualquer tentativa de enfraquecer os mecanismos de fiscalização que existem justamente para limitar o poder de qualquer governante, seja ele de direita, de esquerda ou de centro.


A história demonstra que democracias raramente acabam de uma única vez. Elas costumam ser corroídas lentamente, decisão após decisão, ataque após ataque, até que a sociedade perceba que perdeu direitos que imaginava permanentes.


Se os Estados Unidos desejam continuar sendo referência mundial em liberdade e democracia, precisarão lembrar que nenhuma nação pode defender esses valores apenas em discursos. Eles precisam ser praticados diariamente, principalmente por quem ocupa o cargo mais poderoso do país



 
 
 

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