Papa Francisco: uma década de rupturas, escuta e resistência no Vaticano
- Marcus Modesto
- 21 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
A eleição do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como Papa, em 2013, representou uma virada histórica na Igreja Católica. Primeiro pontífice latino-americano e o primeiro a adotar o nome Francisco — inspirado em São Francisco de Assis —, o papa argentino imprimiu um estilo pastoral, global e mais próximo das dores e dilemas do mundo contemporâneo.
Ao longo de seus 12 anos de pontificado, Francisco buscou reposicionar a Igreja como agente ativo em debates sobre justiça social, meio ambiente, desigualdade e inclusão de minorias. O tom progressista de suas ações, no entanto, encontrou forte resistência nos setores mais conservadores da instituição. Temas como os direitos da população LGBTQIAP+, a descentralização do poder e o papel das mulheres geraram controvérsia e dividiram opiniões dentro da própria hierarquia eclesiástica.
Reformas e rupturas
Uma das reformas mais significativas promovidas por Francisco ocorreu em 2021, com a revisão do Código de Direito Canônico — a mais profunda em quatro décadas. A atualização incluiu punições mais severas contra crimes de abuso sexual cometidos por clérigos, enquadrando a pedofilia e a posse de pornografia infantil como crimes eclesiásticos. A medida foi considerada um avanço, embora limitada diante da gravidade dos escândalos já registrados.
Francisco também procurou tornar a Igreja mais sensível às populações marginalizadas. Visitou presídios, falou repetidamente sobre a crise dos refugiados e incentivou o acolhimento de migrantes. “Aumentou o radar da Igreja, tornando-a mais protetora com os vulneráveis”, avalia o teólogo Francisco Borba, da PUC-SP.
Um papa para o mundo, e não apenas para Roma
Um dos grandes esforços do pontificado foi descentralizar o poder no Vaticano e abrir espaço para igrejas de regiões historicamente sub-representadas. Francisco nomeou cardeais da África, da Ásia e da América Latina, promovendo uma “deseuropeização” da Cúria Romana. “A Igreja se tornou menos italiana e mais universal”, observa o professor Carlos Frederico Gurgel, da Universidade Católica de Petrópolis.
Essa descentralização, no entanto, provocou tensões com setores conservadores, sobretudo nos Estados Unidos. Para enfrentar essas resistências, Francisco incentivou a sinodalidade — um modelo de tomada de decisões mais participativo, com destaque para os sínodos e maior autonomia das conferências episcopais nacionais.
A maior escuta popular da história da Igreja
Em 2021, o Vaticano realizou o maior processo de consulta popular da história católica. Fiéis de todo o mundo foram ouvidos sobre temas sensíveis como o celibato, o divórcio, os métodos contraceptivos e a ordenação de mulheres. Embora não tenha promovido mudanças doutrinárias imediatas, a iniciativa foi simbólica e acendeu o debate sobre a necessidade de renovação da Igreja frente às transformações da sociedade.
“O celibato surgiu na Idade Média, ligado à posse de terras. Hoje, não faz mais sentido”, afirma Arnaldo Lemos, sociólogo da PUC-Campinas e ex-padre. Para ele, ignorar as demandas contemporâneas pode tornar a Igreja irrelevante: “Estamos em um processo de secularização crescente. A religião precisa se reinventar”.
Amazônia, mulheres e conflitos internos
O Sínodo da Amazônia, em 2019, trouxe à tona o debate sobre a ordenação de homens casados e a valorização do papel das mulheres em regiões onde o clero é escasso. Apesar do apoio dos bispos da região, a proposta foi arquivada após forte oposição de alas conservadoras, incluindo do então papa emérito Bento XVI.
Francisco, porém, reconheceu a liderança feminina nas comunidades eclesiais, especialmente na Amazônia. Em seu livro Vamos Sonhar Juntos, escreveu: “Dizer que essas mulheres não são verdadeiramente líderes porque não são padres é clericalismo e falta de respeito”.
Um legado em disputa
O legado de Francisco ainda está em construção — e em disputa. Para seus defensores, ele humanizou a Igreja e a aproximou das causas urgentes do século XXI. Para seus críticos, flexibilizou princípios e abriu espaço para interpretações consideradas perigosas.
O certo é que Francisco inaugurou uma nova fase no catolicismo: mais plural, mais atenta e mais aberta à escuta. “Ele retomou o projeto de uma Igreja que fala para o mundo, mesmo provocando abalos dentro da própria instituição”, resume o vaticanista Filipe Domingues.




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