Paraty aposta em charretes elétricas no Centro Histórico e levanta dúvidas sobre custo, acessibilidade e interesse público
- Marcus Modesto
- há 3 minutos
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Projeto anunciado como novidade para o turismo provoca questionamentos sobre a real necessidade do serviço, os custos de manutenção e a destinação de recursos públicos
A proposta de utilizar veículos elétricos para transportar visitantes pelo Centro Histórico de Paraty pode até ser apresentada como uma iniciativa de modernização do turismo, mas está longe de ser uma unanimidade. Pelo contrário: o projeto abre uma série de questionamentos que precisam ser respondidos antes que recursos públicos sejam empregados em uma iniciativa de benefício ainda pouco claro.
Em um Centro Histórico relativamente pequeno, com ruas estreitas e forte vocação para a circulação de pedestres, a primeira pergunta é inevitável: por que colocar veículos onde a principal experiência turística deveria ser justamente caminhar, observar a arquitetura, conhecer os espaços históricos e vivenciar a cidade?
A questão não é ser contra a tecnologia ou contra a melhoria do atendimento aos turistas. O problema é saber se essa é, de fato, a prioridade para Paraty.
Se existe preocupação com acessibilidade, por exemplo, o caminho mais coerente seria discutir investimentos estruturais que permitam a circulação de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, com soluções compatíveis com as características do patrimônio histórico. Afinal, acessibilidade deveria ser pensada para garantir autonomia e inclusão — e não apenas para criar um novo serviço de transporte.
Também chama atenção a própria característica do piso do Centro Histórico. As ruas de pedra, com superfície irregular, impõem dúvidas sobre a eficiência, o conforto e até a durabilidade de veículos elétricos utilizados de maneira contínua nesse ambiente. É preciso apresentar estudos técnicos que demonstrem que o modelo escolhido é adequado ao local, quais serão os custos de manutenção e qual será a vida útil dos equipamentos.
E existe uma pergunta ainda mais importante: quem vai pagar essa conta?
Energia elétrica, manutenção, reposição de peças, seguros, operação e eventuais adaptações representam despesas permanentes. Se o serviço for privado, qual será exatamente a participação do poder público? Haverá subsídio? Cessão de espaço público? Infraestrutura custeada pela Prefeitura? Fornecimento de energia? E, principalmente, qual será o retorno para o cidadão e para os cofres municipais?
É justamente nesse ponto que a transparência se torna indispensável.
Se recursos públicos forem utilizados para estruturar ou viabilizar uma atividade que será explorada comercialmente por uma empresa privada, a população tem o direito de saber qual é o modelo jurídico adotado, quais critérios foram utilizados para escolher o operador e se houve procedimento público que garantisse igualdade de oportunidade aos interessados.
Não basta dizer que a iniciativa beneficiará o turismo. É necessário demonstrar, com números e documentos, quanto será investido, quem será beneficiado, quem assumirá os custos e quais contrapartidas serão oferecidas ao município.
Também seria fundamental esclarecer se houve estudo técnico, análise de impacto sobre o patrimônio histórico, avaliação de mobilidade, parecer dos órgãos responsáveis pela preservação e consulta aos setores diretamente envolvidos com o Centro Histórico.
Paraty não pode tratar seu patrimônio como laboratório para projetos de ocasião.
Uma cidade reconhecida justamente pela preservação de seu conjunto histórico precisa encontrar soluções que respeitem sua identidade. Modernizar não significa necessariamente colocar veículos elétricos nas ruas. Às vezes, modernizar é fazer aquilo que parece mais simples: garantir acessibilidade, melhorar a infraestrutura, preservar o patrimônio e permitir que o visitante caminhe pela história com segurança e autonomia.
O projeto, portanto, merece mais do que propaganda e discurso de inovação. Merece transparência, estudos técnicos, justificativa econômica e explicações claras sobre a utilização do dinheiro público.
Porque, quando o patrimônio é público e o dinheiro também é público, a pergunta não pode ser apenas “isso é moderno?”. A pergunta principal deve ser:
“Isso é realmente necessário, é tecnicamente adequado, é economicamente vantajoso para Paraty e atende ao interesse público — ou estamos diante de um investimento público cuja principal beneficiada será uma atividade privada?”
Antes de qualquer inauguração, a população merece respostas.
Foto Reprodução




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