PEC da Blindagem: um escudo de privilégios em meio à crise de representatividade
- Marcus Modesto
- 17 de set. de 2025
- 2 min de leitura
A aprovação da chamada PEC da Blindagem pela Câmara dos Deputados, nesta terça-feira (16), é mais um retrato da distância entre os interesses do Congresso e as demandas da sociedade. Com ampla maioria — 353 votos a favor no primeiro turno e 344 no segundo —, os parlamentares decidiram reforçar sua própria proteção em ações criminais e cíveis, em um movimento que soa como resposta direta ao Supremo Tribunal Federal e às investigações sobre o uso irregular de emendas parlamentares.
Sob o argumento de “resgatar garantias constitucionais de 1988”, a proposta confere a deputados e senadores o poder de autorizar ou não o andamento de processos contra si mesmos, por votação secreta em plenário. Além disso, amplia o foro privilegiado, limita a atuação da Justiça em ações de improbidade e blinda dirigentes partidários, que também passarão a ser julgados exclusivamente pelo STF. Trata-se, na prática, de um mecanismo que estreita o acesso da sociedade à responsabilização de seus representantes.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), conduziu a votação em clima de conveniência política: liberou o voto semipresencial e se manteve afastado do plenário durante boa parte do debate, retornando apenas momentos antes da aprovação. A articulação foi vista como tentativa de aliviar pressões por uma anistia ampla aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, ao oferecer ao Congresso um “colchão de proteção” contra futuras ofensivas judiciais.
Críticos, como a deputada Talíria Petrone (PSOL-Rede), apontaram que a PEC não é uma questão de garantias democráticas, mas sim de perpetuação da impunidade. O contraste é gritante: enquanto milhões de brasileiros enfrentam cortes em políticas sociais e encaram a inflação no cotidiano, os parlamentares se empenham em aprovar uma medida que, em essência, garante privilégios próprios.
A votação também escancarou fissuras dentro da base governista. O PT orientou contra a proposta, desagradando líderes do centrão, que já falam em retaliação ao travar pautas de interesse do Planalto, como a tarifa social de energia. Mais uma vez, a sociedade é usada como refém de um jogo de forças que coloca a sobrevivência política dos parlamentares acima das prioridades nacionais.
A PEC da Blindagem segue agora para o Senado. O desfecho dirá se o Congresso pretende se consolidar como um espaço de autorregulação imune à Justiça ou se haverá espaço para frear o avanço de um privilégio que contraria o princípio da igualdade perante a lei.




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