Quando a exceção vira manchete: projeto socioambiental de escola pública em Barra Mansa avança em premiação da ArcelorMittal
- Marcus Modesto
- 6 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Enquanto falta papel higiênico, merenda e estrutura básica em muitas escolas públicas do país, uma iniciativa isolada em Barra Mansa virou notícia e exemplo. A Escola Municipal Vila Elmira – Vocacionada Socioambiental, localizada na periferia da cidade, foi uma das 50 selecionadas entre centenas de instituições de ensino do Brasil na Liga Steam 2025, promovida pela Fundação ArcelorMittal. A proposta pedagógica destacou-se por um projeto de casinhas para animais abandonados, feitas com garrafas PET, desenvolvido com alunos do 1º ano do Ensino Fundamental.
O trabalho, idealizado pela professora Layla Mesquita, surgiu da preocupação das crianças com o frio e os animais de rua – um problema recorrente, ignorado pelo poder público. Além das casinhas, o projeto prevê a distribuição de folders de conscientização e a produção de um vídeo educativo. Tudo com materiais simples, recicláveis e muita criatividade. Faltou, no entanto, mencionar: com pouquíssimo apoio institucional.
A diretora da escola, Elúzer Cândido, e a própria secretária de Educação, Linamar Carvalho, celebraram a conquista como uma vitória coletiva. Linamar aproveitou para reforçar a “parceria” da prefeitura com a ArcelorMittal, gigante do setor siderúrgico, que há anos atua na cidade e em outras regiões do país. Mas até que ponto essa parceria se traduz em investimento real na infraestrutura das escolas públicas? Ou será que iniciativas pontuais como essa servem apenas para dar verniz social a problemas muito maiores e mais profundos?
O reconhecimento nacional de um projeto de baixo custo, feito por crianças pequenas e por uma professora engajada, revela mais do que entusiasmo pedagógico. Expõe também a precariedade e a desigualdade. Uma escola é exaltada por ensinar seus alunos a resolver problemas do cotidiano com as próprias mãos – mas onde está o Estado? Onde estão as políticas públicas permanentes para animais abandonados, para a sustentabilidade, para a valorização do trabalho docente?
A Fundação ArcelorMittal, promotora do prêmio, tem papel importante ao incentivar práticas educativas baseadas em Ciência, Tecnologia, Engenharia, Arte e Matemática (a chamada abordagem STEAM). Mas o modelo de premiação por competição entre escolas públicas – muitas vezes desiguais entre si – também é uma forma de empurrar a responsabilidade para dentro das salas de aula. O projeto é louvável, sim. Mas não deveria ser exceção.
Enquanto celebramos o feito da Escola Vila Elmira, vale perguntar: quantas outras escolas de Barra Mansa têm estrutura, equipe e liberdade pedagógica para participar de prêmios assim? Quantas têm internet, biblioteca, laboratórios ou mesmo carteiras em bom estado? Parabenizar é justo, mas romantizar a superação de dificuldades como se fosse regra é perpetuar o problema.
Foto Secom PMBM




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