Quase meio século depois, Estado brasileiro reconhece: o pianista Tenório Júnior foi vítima da violência das ditaduras militares
- Marcus Modesto
- 14 de set. de 2025
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A confirmação oficial da morte do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, anunciada neste sábado (13) pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), escancara não apenas a brutalidade dos regimes militares da América do Sul, mas também a lentidão com que o Estado brasileiro encara sua própria história.
Tenório Júnior desapareceu em 18 de março de 1976, em Buenos Aires, quando acompanhava Toquinho e Vinícius de Moraes em turnê. Jovem, talentoso e promissor, foi sequestrado, assassinado a tiros e enterrado como indigente numa vala comum na periferia da capital argentina. Um destino trágico que só agora, quase 50 anos depois, é oficialmente reconhecido.
O caso só pôde ser solucionado graças ao trabalho da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) e à determinação da Justiça argentina, que cruzou impressões digitais de cadáveres encontrados entre 1975 e 1983 com os registros brasileiros. A atuação da CEMDP foi decisiva para conectar as informações e comunicar a família.
Mas a pergunta que fica é: por que o Brasil, país de origem da vítima, precisou de quase meio século para chegar a essa resposta? A Operação Condor — aliança das ditaduras da região para perseguir, sequestrar e exterminar opositores políticos — não é novidade. Há décadas, familiares de desaparecidos e organizações de direitos humanos denunciam a cumplicidade do regime militar brasileiro nessas práticas. Ainda assim, os arquivos seguem sob sigilo, a responsabilização é mínima e a memória das vítimas é frequentemente relegada a segundo plano.
A história de Tenório Júnior não é apenas um episódio trágico da repressão argentina. É também o retrato da omissão brasileira diante de seus mortos e desaparecidos. Enquanto vizinhos avançam na investigação de crimes de Estado, o Brasil permanece preso ao negacionismo histórico, protegido por uma anistia que blinda torturadores e esvazia a justiça de transição.
A confirmação da morte do pianista é uma vitória para a verdade e para a memória, mas chega tarde demais para ele e para tantos outros. O desafio que resta é romper com a lógica da impunidade e assumir, de uma vez por todas, a responsabilidade histórica pelas vidas ceifadas pela violência política.
Com informações Agência Brasil




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