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Racismo e cyberbullying em Pinheiral escancaram omissão histórica e impunidade virtual

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 7 de mai. de 2025
  • 2 min de leitura

A denúncia de injúria racial feita por uma jornalista negra de Pinheiral não é um caso isolado — é o estopim de uma realidade alarmante que há tempos ecoa sem resposta. Desde que a denúncia foi formalizada na segunda-feira (5), a delegacia local, agora sob comando interino do delegado Antonio Furtado, passou a receber novos relatos de ataques cometidos pelo mesmo grupo virtual. O episódio lança luz sobre um cenário que mistura racismo estrutural, misoginia e um tipo de covardia que se esconde atrás de perfis anônimos nas redes sociais.


Seis pessoas já foram identificadas nas investigações, mas os relatos mostram que o problema vai muito além da responsabilização de indivíduos: trata-se de uma cultura de impunidade que vem sendo tolerada por anos — inclusive pelas próprias instituições. Um dos relatos mais graves é o de uma mulher de 46 anos, mãe solo de um adolescente autista, que denuncia estar sendo alvo de ofensas há quatro anos. Em 2023, o próprio filho foi chamado de “pet” em uma publicação que sugeria que ele deveria ser mantido “na coleira”. A crueldade foi além: ameaças foram feitas contra o garoto caso ele apresentasse comportamentos típicos de uma crise autista.


A pergunta que precisa ser feita é: por que casos como esse seguem sendo tratados com morosidade, mesmo quando há provas materiais como capturas de tela e boletins de ocorrência já registrados? A mãe já havia procurado a delegacia antes, mas o caso foi engavetado. Um dos investigados sequer compareceu para prestar depoimento e, ao que tudo indica, não houve nenhuma consequência prática.


O delegado Furtado declarou que a prioridade é agir com rapidez em casos de forte repercussão social. Mas desde quando o sofrimento de uma mãe e de um adolescente vulnerável precisa “repercutir” para ser levado a sério? A justiça seletiva, que responde a clamor popular antes de cumprir seu papel institucional, é mais um sintoma da falência no enfrentamento da violência digital no Brasil.


É também sintomático que mulheres negras, mães e ativistas estejam no centro dos ataques. São elas que mais enfrentam a desumanização cotidiana e, ao mesmo tempo, aquelas cujas denúncias mais frequentemente são negligenciadas. A jornalista atacada não foi a primeira e, a julgar pelo histórico, corre o risco de não ser a última.


Apesar de a investigação ter sido finalmente instaurada, o desfecho ainda é incerto. Crimes como injúria e difamação estão sendo remetidos ao Juizado Especial Criminal (Jecrim), conhecido por aplicar penas brandas ou acordos extrajudiciais. Já os casos de racismo e cyberbullying, embora mais graves, enfrentam os entraves de um sistema ainda pouco preparado para lidar com a violência digital em sua dimensão real.


O que está em jogo não é apenas a punição dos agressores, mas o reconhecimento de que há vidas sendo destruídas silenciosamente nos bastidores das redes sociais. Que a justiça vá além do discurso de ocasião e comece, de fato, a proteger os mais vulneráveis. Porque, até aqui, o que mais tem repercutido é a omissão.


Foto Divulgação


 
 
 

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