Refit expõe benefícios a grandes empresas, enquanto Volta Redonda convive com a poluição da CSN
- Marcus Modesto
- há 1 hora
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Debate sobre vantagens concedidas pelo Estado precisa alcançar a CSN, que há décadas é alvo de cobranças ambientais em Volta Redonda; população convive com pó preto, sujeira e problemas relacionados à qualidade do ar
O escândalo envolvendo a Refit colocou novamente sob os holofotes uma questão que o Estado do Rio de Janeiro precisa enfrentar de maneira muito mais ampla: como o poder público trata as grandes empresas, quais benefícios são concedidos e quais contrapartidas são efetivamente entregues à população.
No Sul Fluminense, essa discussão tem um nome inevitável: Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Em Volta Redonda, a empresa é responsável por uma das maiores transformações econômicas da história do interior fluminense. A siderúrgica criou empregos, movimentou a economia e ajudou a transformar a cidade na chamada Cidade do Aço.
Mas existe outro capítulo dessa história — muito menos celebrado — escrito em fuligem, poeira, resíduos industriais e problemas ambientais.
É o capítulo que os moradores conhecem como “pó preto”.
A poluição atmosférica atribuída à atividade industrial da CSN é uma reclamação antiga da população. O material escuro é encontrado sobre carros, telhados, janelas e quintais, enquanto moradores relatam incômodos respiratórios e deterioração da qualidade de vida.
E o problema não está apenas nas reclamações populares.
O Ministério Público fala em poluição capaz de causar danos à saúde
Em outubro de 2025, o Ministério Público Federal denunciou a CSN e a Harsco Metals por crimes ambientais relacionados ao armazenamento e lançamento irregular de resíduos de escória de aciaria em Volta Redonda.
Segundo o MPF, a situação se prolonga há décadas e envolve poluição em níveis capazes de provocar danos à saúde humana. A denúncia também apontou problemas relacionados ao armazenamento de enormes quantidades de resíduos industriais e possíveis impactos sobre solo, água e áreas próximas ao Rio Paraíba do Sul.
Não é uma simples reclamação de vizinhança.
É uma questão que chegou ao Ministério Público Federal e à Justiça.
E há um detalhe especialmente grave: o problema é antigo.
Trinta anos de acordos ambientais
Em 2025, o Ministério Público questionou o histórico de acordos ambientais firmados para reduzir a poluição provocada pela atividade da CSN.
Segundo informações divulgadas sobre a atuação do MP, os acordos e compromissos ambientais remontam a 1994. O problema é que sucessivos prazos foram estabelecidos, prorrogados e novamente prorrogados. O último TAC citado pelo Ministério Público, firmado em 2018, teve seu prazo estendido em 2024 até dezembro de 2026.
Três décadas.
Esse é o ponto que precisa ser encarado.
Quantas décadas uma população precisa esperar para que uma indústria cumpra definitivamente suas obrigações ambientais?
A resposta não pode ser mais um prazo.
Enquanto isso, o pó continua chegando às casas
Para quem vive longe de Volta Redonda, falar em “emissão atmosférica” pode parecer uma expressão técnica.
Para quem mora na cidade, é muito mais simples.
É abrir a janela e encontrar sujeira.
É lavar o carro e pouco depois encontrar novamente uma camada escura sobre a lataria.
É limpar a varanda.
É limpar o quintal.
É limpar a janela.
E fazer tudo novamente.
O chamado pó preto se tornou uma das imagens mais conhecidas da relação entre Volta Redonda e a siderurgia.
Em 2023, a CSN chegou a ser multada em cerca de R$ 1 milhão por poluição, depois que o problema ganhou repercussão pública.
Mais recentemente, reportagens mostraram que a empresa conseguiu adiar compromissos relacionados à modernização de equipamentos destinados à redução das emissões. O prazo, que já deveria ter sido cumprido, foi levado para 2026.
E a saúde?
É preciso fazer uma distinção importante.
Não é correto afirmar que toda doença respiratória existente em Volta Redonda seja causada pela CSN.
Mas também não é aceitável fingir que a poluição atmosférica não representa um problema de saúde pública.
Pesquisas realizadas na cidade já estudaram a relação entre poluição do ar e internações por doenças respiratórias. A preocupação é justamente com a exposição prolongada a partículas e outros poluentes atmosféricos.
E o próprio MPF, ao denunciar a CSN e a Harsco, afirmou que a poluição decorrente do manejo irregular de resíduos poderia resultar em danos à saúde humana.
Portanto, a discussão não é sobre alguém simplesmente “não gostar” da CSN.
É sobre o direito de uma população respirar um ar de qualidade.
A pergunta que ninguém pode fugir
É justamente aqui que o caso Refit precisa servir de ponto de partida para uma discussão maior.
Se o Estado concede benefícios, incentivos ou tratamentos tributários especiais para grandes empresas em nome da geração de empregos e do desenvolvimento econômico, as contrapartidas precisam ser cobradas com a mesma força.
Não basta perguntar quanto uma empresa produz.
É preciso perguntar quanto investe para reduzir sua poluição.
Não basta contar empregos.
É preciso saber qual é o custo ambiental da atividade.
Não basta comemorar arrecadação.
É necessário saber quanto dinheiro público é utilizado para fiscalizar, remediar e enfrentar os impactos ambientais.
E, principalmente:
quanto vale a saúde de quem mora ao lado da indústria?
Volta Redonda não pode ser lembrada somente quando interessa
A história da CSN é também a história de Volta Redonda.
Mas justamente por isso a população tem o direito de exigir mais.
A cidade não pode ser importante quando é necessário produzir aço, gerar riqueza ou receber investimentos e ser esquecida quando o assunto é meio ambiente.
O trabalhador não pode ter que escolher entre emprego e saúde.
O morador não pode ter que escolher entre desenvolvimento econômico e qualidade do ar.
E a população não pode ser transformada em espectadora de uma sequência interminável de acordos ambientais que não chegam a uma solução definitiva.
A CSN tem importância econômica inegável.
Mas tamanho econômico não pode significar imunidade à cobrança.
Quanto maior a empresa, maior deve ser sua responsabilidade ambiental.
A Cidade do Aço merece mais
Volta Redonda ajudou a construir a indústria brasileira.
Seus trabalhadores ajudaram a construir a CSN.
A cidade pagou um preço enorme pela industrialização e continua convivendo com problemas ambientais que atravessaram gerações.
Agora é hora de inverter a lógica.
Quem produz riqueza também precisa produzir responsabilidade.
O Estado precisa fiscalizar.
Os órgãos ambientais precisam agir.
O Ministério Público precisa continuar cobrando.
E a empresa precisa cumprir integralmente suas obrigações.
Porque o debate aberto pelo caso Refit não deveria terminar na Refit.
Ele deveria provocar uma pergunta muito maior:
até quando o poder público aceitará conceder vantagens às grandes empresas sem exigir, com a mesma firmeza, contrapartidas econômicas, sociais e ambientais?
Em Volta Redonda, essa pergunta tem cheiro, tem cor e tem nome.
É o pó preto que aparece nas casas.
É a sujeira que volta depois da limpeza.
É a preocupação com o ar que as pessoas respiram.
E é a cobrança de uma população que já espera há décadas por uma solução definitiva.
A Cidade do Aço não quer deixar de ser industrial. Ela quer deixar de ser obrigada a pagar, com a própria qualidade de vida, o preço da industrialização.
Foto Reprodução




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