Relatório da PF expõe planos de Bolsonaro para obter apoio dos EUA, fugir para a Argentina e burlar ordens judiciais
- Marcus Modesto
- 21 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
A Polícia Federal encontrou, no celular do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), um vasto conjunto de mensagens, áudios e documentos que revelam articulações para obter apoio político dos Estados Unidos, planos de fuga para a Argentina e estratégias para descumprir ordens judiciais. O material integra o relatório final que embasou o indiciamento de Bolsonaro e de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). As informações foram compiladas com base em dados do Estadão.
Conflitos internos e insultos
As conversas expõem desentendimentos na própria família Bolsonaro e aliados próximos. Mensagens mostram Jair e Eduardo trocando ofensas e críticas. O pastor Silas Malafaia também aparece em atrito, chegando a chamar Eduardo de “babaca”. O líder religioso teve o celular apreendido ao desembarcar no Rio de Janeiro.
Mensagens apagadas e recuperadas
A PF utilizou softwares de extração para acessar mensagens de WhatsApp apagadas. O conteúdo aponta que Jair Bolsonaro atuava em alinhamento com tentativas de sanções internacionais contra o Brasil, buscando apoio direto do governo norte-americano.
Quebra de restrições judiciais
Mesmo proibido de usar redes sociais, Bolsonaro continuou divulgando conteúdos por intermédio de terceiros e listas de transmissão. Investigadores identificaram mensagens que circularam mais de 350 vezes.
Defesa de general e plano de assassinato
No celular do ex-presidente, foi encontrada uma versão preliminar da defesa do general Mário Fernandes, acusado de elaborar o plano “Punhal Verde Amarelo”, que previa o assassinato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Pedido de asilo à Argentina
Outro documento chama atenção: uma minuta de 33 páginas endereçada ao presidente argentino Javier Milei, solicitando asilo político. O texto estava vinculado ao nome de Fernando Bolsonaro, marido de uma sobrinha do ex-presidente.
Contato proibido com Braga Netto
A PF também recuperou mensagem enviada por SMS de um número pré-pago atribuído ao general Walter Braga Netto, proibido judicialmente de se comunicar com Bolsonaro. O texto, de 9 de fevereiro de 2024, dizia: “Estou com este número pré-pago para qualquer emergência. Não tem zap. Somente FaceTime. Abs, Braga Netto”.
Ação de Eduardo Bolsonaro nos EUA
As mensagens analisadas mostram que Eduardo Bolsonaro tinha como prioridade salvar o pai, e não os demais condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Em um diálogo, alertou:
“Se a anistia light passar, a última ajuda dos EUA terá sido o post do Trump. Eles não vão mais ajudar. Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia OU mandar o pessoal que esteve no protesto para casa no semiaberto. Nesse cenário, você não teria mais amparo dos EUA e estaria igualmente condenado.”
Segundo a PF, esse trecho demonstra que a estratégia principal era blindar Jair Bolsonaro.
Desavenças internas e críticas de Malafaia
As mensagens também revelam discussões acaloradas. Eduardo se irritou com o apoio público de Jair ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos):
“VTNC SEU INGRATO! Me ferrei aqui! Se o imaturo do seu filho de 40 anos não puder encontrar com os caras, PORQUE VOCÊ ME JOGA PRA BAIXO, quem vai se ferrar é você!”
Já Malafaia se queixou diretamente a Jair Bolsonaro da atuação de Eduardo nos EUA:
“E vem o teu filho babaca falar merda! Dei-lhe um esporro, mandei um áudio de arrombar e disse que, se fizer de novo, gravo um vídeo e arrebento!”
Transferências suspeitas de R$ 2 milhões
Os investigadores apontaram ainda movimentações financeiras de Jair Bolsonaro às vésperas de depoimentos. No dia 4 de junho, ele transferiu R$ 2 milhões para a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Um mês antes, quantia idêntica havia sido repassada ao filho Eduardo, que, por sua vez, destinou parte à esposa, Heloísa, justamente no dia em que Jair prestou interrogatório. Para a PF, trata-se de movimentação coordenada para dificultar rastreamento.
Ligação com advogado ligado a Trump
Outro ponto levantado é a relação direta com Martin de Luca, advogado norte-americano associado à Trump Media e à plataforma Rumble. Ele enviou a Jair Bolsonaro cópia de um processo protocolado na Flórida contra o ministro Alexandre de Moraes (STF), o que reforça, segundo a PF, uma ação internacional contra o Judiciário brasileiro.
Reações e defesas
Após o indiciamento, Eduardo Bolsonaro alegou que suas atividades nos EUA não buscaram interferir em processos judiciais no Brasil, mas sim defender “liberdades individuais” e apoiar o projeto de anistia em tramitação no Congresso.
Já Silas Malafaia, depois de prestar depoimento, voltou a atacar Moraes:
“O criminoso Alexandre de Moraes estabeleceu o crime de opinião no Estado Democrático de Direito. Não tenho medo de ditadores. Não sou bandido.”




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