Repressão a protesto contra deportações expõe contradições da política migratória nos EUA
- Marcus Modesto
- 9 de jun. de 2025
- 2 min de leitura
O que começou como uma manifestação pacífica em defesa dos direitos de imigrantes terminou com mais de 60 pessoas presas — incluindo menores de idade — na noite deste domingo (8), em São Francisco, Califórnia. A repressão, conduzida com uso de aparato antimotim pela polícia local, escancarou uma realidade incômoda: o endurecimento das ações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) nos Estados Unidos tem atingido, cada vez mais, os setores mais vulneráveis da sociedade.
A mobilização ocorrida nos arredores do prédio do ICE reuniu centenas de manifestantes que denunciaram as recentes batidas policiais e deportações em série promovidas pela agência federal. Entre palavras de ordem, cartazes e discursos emocionados, o ato buscava dar visibilidade à perseguição sistemática a imigrantes em situação irregular, muitos deles com décadas de residência no país e vínculos familiares consolidados.
“Essa coisa toda de perseguir imigrantes e pessoas sem documentos, os mais vulneráveis da nossa população, é muito errada”, declarou à imprensa a manifestante Nancy Kato, sintetizando a indignação de uma parte expressiva da sociedade americana que resiste ao avanço de políticas migratórias cada vez mais agressivas.
Mas o que poderia ter sido mais um exercício legítimo do direito à manifestação pública terminou em confronto. Segundo a polícia de São Francisco, a reunião foi considerada uma “aglomeração ilegal” após o aumento da tensão, e a ordem de dispersão foi dada. Parte dos manifestantes acatou. Outra parte, não. O resultado: prisões em massa, dois policiais feridos e, ainda mais grave, a confirmação de que menores de 18 anos estão entre os detidos.
A face seletiva do aparato de segurança
O episódio lança luz sobre uma contradição crescente no discurso das autoridades: ao mesmo tempo em que se proclama o respeito às liberdades civis, o aparato estatal responde com truculência a protestos que contestam políticas públicas — sobretudo aquelas ligadas à imigração. A criminalização de manifestações pacíficas, especialmente quando envolvem grupos já fragilizados, revela uma seletividade preocupante no uso da força.
O uso de armas de fogo, a presença ostensiva de tropas de choque e a repressão violenta a jovens e famílias que apenas pedem dignidade para os imigrantes são sinais claros de que o debate sobre segurança e imigração nos EUA caminha perigosamente para o autoritarismo.
Um país dividido entre muros e pontes
A repressão em São Francisco acontece no mesmo momento em que outras cidades americanas também registram protestos contra a política migratória federal. Em Los Angeles, Nova York e Chicago, milhares de pessoas têm ocupado ruas e espaços públicos para denunciar o que chamam de “caça humana institucionalizada”.
A pergunta que se impõe é: até onde vai a disposição do governo norte-americano de silenciar a dissidência e manter uma política de deportações em massa? E mais: quem se beneficia com o medo e a insegurança impostos aos imigrantes?
Enquanto a resposta não vem, os protestos se multiplicam — e, com eles, a certeza de que parte da sociedade americana não está disposta a aceitar calada o avanço do arbítrio. Porque a luta por direitos, quando reprimida, apenas muda de palco. Mas não silencia.




Comentários