Rio soma mais de 8 mil mortes em ações policiais desde 2019 e estudo aponta impacto desproporcional sobre população negra
- Marcus Modesto
- 1 de jul.
- 3 min de leitura
O estado do Rio de Janeiro registrou 8.119 mortes decorrentes de intervenções policiais entre 2019 e 2025. Os números fazem parte do boletim Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, divulgado nesta quarta-feira (1º) pela Rede de Observatórios, que analisou dados de nove estados brasileiros e destacou o impacto da violência policial sobre a população negra.
De acordo com o levantamento, o Rio contabilizou 800 mortes em ações policiais em 2025, um aumento de 13,8% em comparação com 2024, quando foram registrados 703 casos. A série histórica apresentada pelos pesquisadores mostra 1.814 mortes em 2019, 1.245 em 2020, 1.356 em 2021, 1.330 em 2022, 871 em 2023, 703 em 2024 e 800 em 2025.
O estudo aponta que pessoas negras enfrentam um risco significativamente maior de morrer em operações policiais no estado. Segundo os pesquisadores, a probabilidade de uma pessoa negra ser vítima de letalidade policial é seis vezes superior à de uma pessoa branca. A análise foi realizada a partir de informações fornecidas pelas secretarias estaduais de Segurança Pública, cruzadas com dados populacionais.
A pesquisa também revela um perfil recorrente entre as vítimas. A maioria é formada por homens negros e jovens. Somente em 2025, 409 pessoas mortas em intervenções policiais tinham entre 18 e 29 anos. O levantamento ainda destaca que o Rio de Janeiro foi o único estado analisado a registrar mortes de crianças de até 11 anos durante operações policiais no período, com dois casos contabilizados.
Para a pesquisadora Manuela Peclat, os números indicam a necessidade de reavaliar as estratégias de enfrentamento ao crime organizado. Ela afirma que os dados demonstram a persistência de uma política de segurança que não tem produzido resultados efetivos na redução da violência e das organizações criminosas.
O relatório também dedica atenção especial à chamada Operação Contenção, realizada pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão, em outubro de 2025. Segundo os autores do estudo, a ação teria resultado em mais de 121 mortes, sendo apontada como a mais letal já registrada no país. O documento cita ainda denúncias encaminhadas a órgãos de controle relacionadas a supostos abusos cometidos durante operações nas regiões do Alemão e da Penha.
O coronel da reserva José Vicente Filho avaliou que os índices refletem problemas estruturais na política de segurança pública fluminense. Para ele, é necessário ampliar mecanismos de supervisão e controle da atividade policial, além de investir em treinamento e protocolos operacionais mais rigorosos.
Em resposta às conclusões do estudo, a Polícia Civil afirmou que as mortes registradas durante a Operação Contenção ocorreram em confrontos com criminosos armados. A corporação sustenta que a ação teve como objetivo combater organizações criminosas que atuavam em comunidades dominadas por facções e utilizavam armamentos de alto poder ofensivo.
A instituição também declarou que não adota qualquer critério racial em suas ações e que seus agentes atuam dentro dos parâmetros legais, utilizando a força apenas quando necessário para proteger vidas e enfrentar ameaças armadas.
Outro ponto abordado pelo levantamento é o uso de câmeras corporais. Implantado na Polícia Militar em 2022, o sistema segue no centro das discussões sobre transparência e controle das operações. Segundo o estudo, durante a megaoperação realizada em outubro de 2025 apenas 23% dos agentes envolvidos utilizavam os equipamentos.
Os pesquisadores defendem que o monitoramento das ações policiais, aliado a protocolos claros e fiscalização permanente, pode contribuir para reduzir a letalidade e aumentar a transparência das operações de segurança pública no estado.




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