Rodrigo Drable mira a Alerj, mas histórico de contas, processos e decisões volta ao centro da disputa eleitoral
- Marcus Modesto
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Marcus Modesto
BARRA MANSA — A pré-candidatura do ex-prefeito Rodrigo Drable a deputado estadual coloca novamente sua trajetória à frente da Prefeitura de Barra Mansa no centro do debate político regional. Com a eleição de 2026 se aproximando, Drable busca transformar os oito anos de governo municipal em credencial eleitoral e se apresenta como um nome capaz de ampliar a representação de Barra Mansa e do Sul Fluminense na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
O problema é que, junto com a experiência administrativa e o capital político acumulado, vem também um histórico de contas analisadas pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), processos administrativos e episódios judiciais que continuam fazendo parte da biografia pública do ex-prefeito.
Um dos principais capítulos está nas contas de governo de 2018. No processo TCE-RJ nº 207.608-4/19, o Tribunal emitiu parecer prévio contrário à aprovação das contas da Prefeitura de Barra Mansa sob responsabilidade de Drable.
Entre os apontamentos registrados pelo Tribunal está uma diferença de R$ 731.787,25 na movimentação dos recursos do Fundeb, relacionada à ausência de comprovação de saída de recursos. O mesmo processo registrou ainda R$ 36.099.115,76 em restos a pagar não processados sem correspondente disponibilidade de caixa.
Os números são relevantes porque não se trata de uma avaliação política feita por adversários. São informações constantes de documento oficial do órgão responsável pelo controle externo das contas públicas municipais.
Parecer contrário acabou derrubado na Câmara
O parecer do TCE-RJ, entretanto, não determinou sozinho o destino das contas. A decisão final, no caso das contas de governo, passou pelo Legislativo municipal.
Em maio de 2020, a Câmara de Barra Mansa aprovou as contas de 2018 por 14 votos a cinco, contrariando o parecer prévio do Tribunal de Contas.
A votação ocorreu em meio a uma crise política que já envolvia acusações de tentativa de influência sobre vereadores para garantir a aprovação das contas. O episódio acabou se tornando um dos mais delicados da trajetória política de Drable.
Poucos meses depois, o assunto ganharia uma dimensão ainda maior.
O afastamento de 2020
Em julho de 2020, Rodrigo Drable foi afastado judicialmente da Prefeitura durante uma operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e da Polícia Civil.
A investigação envolvia suspeitas de corrupção e organização criminosa. Na ocasião, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados à Prefeitura, à Câmara Municipal e aos investigados. Drable permaneceu afastado por algumas semanas e posteriormente retornou ao cargo por decisão judicial.
O episódio entrou definitivamente para a história política de Barra Mansa e passou a acompanhar a trajetória do então prefeito.
A questão, portanto, não é transformar investigação em condenação. É reconhecer que o afastamento judicial ocorreu, que houve uma investigação e que o episódio teve repercussão política e institucional.
O fim do mandato não encerrou o capítulo no Tribunal de Contas
A saída da Prefeitura também não significou o desaparecimento dos processos relacionados à gestão.
O sistema do TCE-RJ registra o processo 212557-1/2025, referente à prestação de contas de governo de Barra Mansa, com Rodrigo Drable relacionado ao processo e o conselheiro Rodrigo Melo do Nascimento como relator. O processo aparece em registros do Tribunal ao longo de 2026.
Isso significa que o passado administrativo continua sendo examinado pelos mecanismos de controle.
E esse ponto ganha importância adicional justamente agora, quando o ex-prefeito pretende retornar ao cenário eleitoral, desta vez buscando uma cadeira no Legislativo estadual.
Há decisões favoráveis — mas elas não apagam as controvérsias
A trajetória de Drable no TCE-RJ não é formada exclusivamente por decisões negativas.
As contas de outros exercícios receberam pareceres favoráveis do Tribunal. Isso é parte da história e precisa ser registrado.
Mas a existência de decisões favoráveis não elimina os apontamentos feitos em outros exercícios, assim como um parecer contrário não permite concluir que toda a administração tenha sido irregular.
O quadro é mais complexo.
E é justamente essa complexidade que precisa chegar ao eleitor.
Outros processos ampliam o escrutínio
A documentação oficial também registra outros processos envolvendo a administração municipal do período.
Em processo relacionado à área da Saúde, o TCE-RJ analisou irregularidades relacionadas à fiscalização de abastecimentos de veículos oficiais e aplicou multa a Rodrigo Drable. A decisão posteriormente foi objeto de recurso e o valor foi revisto pelo Tribunal.
Também há registro, em documentos do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, de processo envolvendo Drable e outros investigados, com deliberação do Conselho Superior do MPRJ determinando providências relacionadas ao ressarcimento de possível lesão ao erário.
São situações distintas, com naturezas jurídicas diferentes, e não devem ser colocadas no mesmo pacote como se representassem condenações criminais. Mas fazem parte do histórico documental da administração e ajudam a compreender por que a trajetória do ex-prefeito continua sob escrutínio.
De prefeito a candidato: o desafio de explicar o legado
A eventual candidatura de Rodrigo Drable à Alerj acontece em um momento em que o eleitorado do Sul Fluminense deverá avaliar não apenas alianças e promessas, mas também o histórico dos nomes que pretendem representar a região.
Drable tem experiência política e conhecimento da máquina pública. Governou Barra Mansa por dois mandatos e construiu uma rede de relações políticas que agora pode ser utilizada para tentar chegar ao Legislativo estadual.
Mas a mesma experiência que pode ser apresentada como credencial também permite uma cobrança maior.
Quem administrou o município por oito anos precisa responder pelo conjunto da administração — pelos avanços, pelos problemas, pelas decisões tomadas e pelas consequências dessas decisões.
As contas de 2018 são um exemplo disso.
O parecer contrário do TCE-RJ, os valores apontados pelo Tribunal, a posterior aprovação pela Câmara e a crise política que cercou aquela votação não desapareceram da história simplesmente porque o mandato terminou.
Da mesma maneira, o afastamento judicial de 2020 não pode ser apagado de uma biografia política apenas porque Drable posteriormente retornou ao cargo.
A eleição também será um julgamento sobre o legado
A disputa por uma vaga na Alerj transforma o passado administrativo em elemento inevitável da campanha.
Rodrigo Drable poderá apresentar as realizações de seus dois mandatos, defender suas decisões e explicar os episódios que marcaram sua administração. Seus adversários terão o direito de explorar os pontos controversos. E caberá ao eleitor avaliar o conjunto.
O que não cabe é transformar a eleição em uma disputa de versões sem documentos.
Os documentos existem.
O TCE-RJ registrou parecer contrário em determinadas contas, apontou valores expressivos e analisou diferentes situações relacionadas à gestão municipal. Em outros exercícios, o próprio Tribunal apresentou pareceres favoráveis.
O Ministério Público investigou episódios envolvendo a administração.
A Justiça determinou o afastamento do então prefeito em 2020 e posteriormente permitiu seu retorno.
Esse é o retrato documental de uma trajetória política que está longe de ser simples.
O passado volta à urna
Ao mirar a Alerj, Rodrigo Drable não disputa apenas uma nova eleição. Ele coloca seu legado de oito anos à frente da Prefeitura de Barra Mansa novamente diante do eleitor.
E a pergunta que inevitavelmente acompanhará sua pré-candidatura é direta:
o capital político construído durante os dois mandatos será suficiente para superar as controvérsias, os apontamentos dos órgãos de controle e os episódios judiciais que marcaram sua trajetória?
A resposta não será dada pelo TCE, pelo Ministério Público, pela oposição ou pelos aliados do ex-prefeito.
Será dada nas urnas.
Até lá, o passado administrativo de Rodrigo Drable continuará sendo parte do presente da disputa eleitoral em Barra Mansa — e, diante dos documentos oficiais, não há razão para tratá-lo como um capítulo encerrado.
Foto Arquivo




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