Sanções como arma política: como o cerco econômico dos EUA aprofundou a crise venezuelana
- Marcus Modesto
- 18 de jan.
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País – Muito além das tensões diplomáticas e de recentes ações militares dos Estados Unidos com o discurso de mudança de regime, a Venezuela convive há anos com um cerco econômico que moldou profundamente sua realidade social e produtiva. As chamadas Medidas Coercitivas Unilaterais, impostas por Washington, transformaram-se em um dos principais instrumentos de pressão externa contra o governo de Nicolás Maduro, com impactos que extrapolam a esfera política e atingem diretamente a população.
Estudos acadêmicos e relatórios das Nações Unidas indicam que sanções prolongadas passaram a ser utilizadas de forma recorrente como ferramenta de política externa para fragilizar governos considerados fora do eixo de influência das grandes potências. Casos como os da Venezuela e do Irã seguem um padrão semelhante: restrições financeiras, bloqueios comerciais e isolamento internacional com o objetivo declarado de promover mudanças internas de poder.
Para a economista e socióloga Juliane Furno, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o foco dessas medidas não é apenas econômico. “As sanções buscam asfixiar experiências políticas que escapam ao controle dos países imperialistas, criando um ambiente de insatisfação social capaz de pressionar por mudanças de regime”, analisa.
O cerco financeiro e comercial
Apesar de deter as maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela passou a enfrentar severas restrições a partir do bloqueio imposto pelos Estados Unidos. As sanções limitaram o financiamento da indústria petrolífera, dificultaram o refinanciamento da dívida externa, interromperam transações internacionais e resultaram no congelamento de ativos no exterior — em alguns casos, transferidos ao controle da oposição ao governo Maduro.
O bloqueio não se restringiu a Washington. Países como Portugal e Reino Unido também retiveram ativos venezuelanos. O Banco Central da Inglaterra, por exemplo, confiscou 31 toneladas de ouro avaliadas em cerca de US$ 1,2 bilhão. Além disso, a simples vinculação de operações financeiras à Venezuela passou a ser tratada como suspeita, levando bancos e instituições internacionais a romperem relações comerciais por receio de retaliações.
Outro ponto central foi a perda do controle da Citgo, principal filial da estatal PdVSA nos Estados Unidos. Os dividendos deixaram de ser repassados ao governo venezuelano, e a empresa acabou liquidada pela Justiça norte-americana no fim de 2025 para pagamento de credores internacionais. Caracas classificou a decisão como confisco ilegal.
Recessão, migração e disputa de narrativas
Entre 2013 e 2022, a economia venezuelana encolheu cerca de 75% do Produto Interno Bruto (PIB). O colapso econômico impulsionou a saída de mais de 7,5 milhões de pessoas do país — aproximadamente 20% da população. O debate sobre as causas dessa crise divide especialistas, que apontam tanto falhas de gestão interna quanto o peso crescente das sanções internacionais.
A recessão teve início em 2014, em meio à forte queda dos preços do petróleo no mercado internacional. As sanções mais abrangentes, porém, só foram implementadas a partir de agosto de 2017, durante o primeiro governo Donald Trump, quando os Estados Unidos restringiram o acesso da Venezuela ao sistema financeiro norte-americano. Entre 2018 e 2020, novas medidas atingiram os setores de ouro, minérios, petróleo e diesel, além da aplicação de sanções secundárias contra empresas de outros países que mantinham negócios com Caracas.
O economista venezuelano Francisco Rodríguez, professor da Universidade de Denver e crítico dos governos chavistas, reconhece erros internos na condução da economia antes de 2017. Ainda assim, avalia que o embargo foi decisivo para aprofundar a crise. “Atribuir a migração apenas ao regime de Maduro ignora o impacto direto das sanções sobre as condições de vida”, afirma.
Segundo suas pesquisas, as sanções figuram entre os principais fatores do colapso econômico e da deterioração dos padrões de vida desde 2012. Rodríguez estima que um eventual retorno à política de “pressão máxima” poderia provocar a migração adicional de cerca de 1 milhão de venezuelanos nos próximos cinco anos.
Petróleo no centro da crise
A dependência quase absoluta do petróleo é apontada como elemento-chave para entender a vulnerabilidade da Venezuela. Mais de 95% das receitas de exportação do país vêm do setor. Em 2014, o preço do barril despencou quase 70%, comprometendo receitas, importações e o abastecimento interno.
De acordo com Juliane Furno, as sanções agravaram esse cenário ao dificultar a compra de insumos e afastar parceiros comerciais. Dados indicam que a retração do setor petrolífero saltou de 11,5% em 2017 para 30,1% em 2018, primeiro ano completo após o bloqueio financeiro. A perda estimada foi de US$ 8,4 bilhões em divisas, segundo estudos do economista Jeffrey Sachs.
Da inflação à hiperinflação
Relatório do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (Cepr), sediado em Washington, aponta que a perda de receitas causada pelo bloqueio foi determinante para a transição da inflação elevada para a hiperinflação, consolidada oficialmente em dezembro de 2017.
O quadro se agravou em 2019, com o bloqueio das reservas de ouro e a proibição de acesso ao mercado norte-americano, principal destino do petróleo venezuelano. À época, o então assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, estimou que a medida causaria uma perda superior a US$ 11 bilhões em exportações apenas em 2020.
Alívio parcial e sinais de recuperação
Para Furno, um dos indícios mais claros do impacto das sanções é a retomada econômica observada a partir de 2022, quando o governo de Joe Biden flexibilizou parte das restrições. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à ONU, apontam crescimento de 8,5% do PIB venezuelano em 2024 e de 6,5% em 2025.
Origem política das sanções
As sanções contra a Venezuela são justificadas oficialmente pelos Estados Unidos como instrumento de defesa da democracia, dos direitos humanos e de combate ao narcotráfico. O arcabouço legal do bloqueio foi aprovado em dezembro de 2014, ainda no governo Barack Obama, após uma onda de protestos que defendia a destituição de Maduro.
Em março de 2015, Obama assinou a Ordem Executiva 1.692, declarando a Venezuela uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos Estados Unidos — ato que abriu caminho para a imposição sistemática de sanções econômicas e financeiras que moldaram, desde então, o destino do país sul-americano.




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