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Sistema Free Flow vira armadilha para moradores e turistas em Paraty: mais de 2 milhões de multas no país e caos no litoral fluminense

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 16 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Paraty – julho de 2025 – O que deveria representar um avanço tecnológico no sistema de cobrança de pedágios se transformou num pesadelo para motoristas, moradores e turistas que circulam pela BR-101 (Rodovia Rio-Santos), especialmente no trecho que corta a Costa Verde. Com dois anos de funcionamento, o modelo Free Flow – que realiza a cobrança automática sem cancelas físicas – tem sido alvo de duras críticas, denúncias de abuso e uma avalanche de multas que já ultrapassam a casa dos 2 milhões em todo o Brasil, gerando quase meio bilhão de reais em arrecadação.


No trecho entre os km 414 (Itaguaí), 447 (Mangaratiba) e 538 (Paraty), a realidade é ainda mais preocupante. Relatos de motoristas que acumulam centenas de multas, falhas na sinalização, ausência de aviso prévio sobre o funcionamento do sistema e a dificuldade ou impossibilidade de pagar pelo site têm sido recorrentes.


“Tem gente com 400 multas e nem sabia que tinha pedágio”


A moradora Carla Aparecida Rosa Leopoldino, motorista profissional em Paraty, é uma das que se viram atoladas em cobranças. “Tem muita gente do Rio que deixou de vir para cá por causa desse problema do pedágio. Ninguém quer vir passear e voltar com quase R$ 400 em multa. Hoje eu não ganho nem metade do que recebia em um mês”, desabafa. Ela conta que, por causa da falta de aviso sobre os pórticos, muitos turistas voltavam para casa com o carro alugado recheado de infrações por “evasão de pedágio”.


A indignação levou Carla a reunir mais de 400 assinaturas em um abaixo-assinado, protocolado junto ao Ministério Público pedindo a suspensão do sistema. Segundo ela, o Free Flow se tornou um mecanismo de punição em massa, sem garantir o básico: informação clara e acesso justo ao pagamento.


Um sistema falho que enriquece à custa da desinformação


De acordo com dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), desde 2023 o Free Flow gerou 1.233.357 multas por evasão de pedágio, número muito superior ao total de autuações aplicadas em todo o país pela PRF no mesmo período (87 mil). No estado do Rio de Janeiro, já são mais de R$ 200 milhões em multas, um número que levanta sérias suspeitas sobre a real intenção do modelo: facilitar o trânsito ou enriquecer os cofres públicos com a confusão dos usuários?


Deputado propõe suspensão das multas e criação de canais físicos de atendimento


Diante da crise, o deputado federal Hugo Leal propôs uma emenda ao projeto de lei 4643/2020, aprovada na Câmara dos Deputados, que suspende por 12 meses a emissão de multas por evasãoe cancela os pontos na CNH de quem quitar os valores devidos nesse período. O texto agora aguarda votação no Senado.


O parlamentar também é autor do projeto de lei 3.262/2024, que busca reformar a estrutura do sistema. Entre as medidas, estão melhorias na sinalização, centralização das informações de cobrança, e a criação de pontos físicos nas estradas para que motoristas possam consultar débitos e efetuar pagamentos de forma segura — algo básico que o Free Flow jamais ofereceu.


Quando a tecnologia serve ao lucro, e não às pessoas


O Free Flow foi vendido como modernização. Na prática, virou um instrumento de penalização silenciosa, que pune sem avisar, cobra sem funcionar e prejudica diretamente setores inteiros da economia regional — como o turismo em Paraty, que agoniza com a fuga de visitantes e o desestímulo ao tráfego pela Rio-Santos.


A pergunta que fica é: quantas multas a mais serão necessárias para que o Estado reconheça que tecnologia sem transparência é só mais um pretexto para exploração?


 
 
 

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