Surto de tuberculose fecha Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama em Seropédica
- Marcus Modesto
- 26 de jun.
- 3 min de leitura
O Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em Seropédica, na Baixada Fluminense, está temporariamente fechado após a confirmação de um surto de tuberculose entre macacos-prego mantidos na unidade. Desde o dia 18 de maio, a entrada e a saída de animais foram suspensas por razões sanitárias.
A unidade é a única do Ibama no Estado do Rio de Janeiro habilitada para receber, tratar, reabilitar e devolver à natureza aves, mamíferos e répteis vítimas de tráfico, maus-tratos ou encontrados fora de seu habitat natural.
Pelo menos três macacos-prego morreram em decorrência da doença. Exames realizados com apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) confirmaram a tuberculose como causa das mortes. A suspeita é que um dos primatas tenha chegado contaminado ao centro entre 2024 e 2025.
Protocolo de emergência
Atualmente, o Cetas abriga 989 animais, entre eles 51 macacos, 503 aves, duas onças e diversas outras espécies. Com a confirmação do surto, o Ibama adotou um protocolo de emergência para impedir a disseminação da doença.
Segundo o superintendente do Ibama no Rio de Janeiro, Rogério Rocco, a unidade foi dividida em áreas com restrição de circulação. Além disso, servidores e tratadores passaram a utilizar equipamentos de proteção individual, incluindo máscaras N95.
Cerca de 50 funcionários e colaboradores também foram submetidos a exames. Embora um teste inicial tenha apontado contato prévio com a bactéria em um dos profissionais, exames complementares descartaram casos ativos da doença entre os trabalhadores.
Monitoramento dos animais
Os macacos que permanecem no centro estão distribuídos em oito recintos e serão submetidos a novos exames por amostragem nos próximos dias. O objetivo é identificar rapidamente possíveis novos focos e evitar a propagação da doença.
Os três primatas mortos chegaram ao Cetas em diferentes operações de resgate. Um deles foi encaminhado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) após ser resgatado em Petrópolis. Outro foi apreendido pela Polícia Federal em Mangaratiba, enquanto o terceiro foi recolhido pela Polícia Rodoviária Federal em Piraí.
Segunda paralisação em pouco mais de um mês
Esta é a segunda interrupção das atividades do centro em pouco mais de um mês. Em 29 de abril, o Ibama já havia suspendido o recebimento de animais encaminhados por órgãos estaduais, como o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), além das polícias Civil e Militar.
Na ocasião, a suspensão ocorreu em razão do descumprimento de um acordo judicial firmado entre Ibama e Inea em julho de 2024. O compromisso previa o compartilhamento dos custos de manutenção da unidade, incluindo alimentação, medicamentos, exames laboratoriais e a disponibilização de profissionais especializados.
De acordo com o Ibama, grande parte das obrigações previstas no acordo não foi cumprida integralmente, levando o órgão a recorrer à Justiça para exigir sua execução.
Preocupação com o atendimento à fauna silvestre
O procurador da República Renato Machado afirma que a ausência de um centro estadual de triagem dificulta o atendimento de animais apreendidos em operações de fiscalização ambiental.
Enquanto o impasse judicial permanece sem solução, entidades de proteção animal buscam alternativas para encaminhar animais feridos ou vítimas do tráfico. Uma das opções tem sido a Clínica de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), da Universidade Estácio, em Vargem Grande.
Segundo a advogada Jomara Knoff, presidente da Comissão de Defesa e Proteção dos Animais da OAB Barra da Tijuca, o fechamento do Cetas compromete significativamente o trabalho de resgate e atendimento à fauna silvestre.
Histórico de dificuldades
Os problemas enfrentados pelo centro não são recentes. Em 2021, a unidade ficou fechada devido a problemas estruturais e elétricos. Após uma ampla reforma concluída no fim de 2022, passou a contar com ambientes climatizados e melhores condições de funcionamento.
Grande parte dos animais recebidos no local é vítima do tráfico de fauna. As aves representam a maioria dos resgates. Somente em 2025, o Cetas recebeu 7.410 animais. Desse total, 3.116 foram reabilitados e devolvidos à natureza, 103 foram destinados a criadouros autorizados e 16 retornaram aos antigos responsáveis por determinação judicial.
Entre as espécies mais frequentemente apreendidas estão coleiros-papa-capim, tizius e trinca-ferros. Entre os répteis, predominam jabutis, cascavéis e jiboias.
Versão do Inea
Em nota, o Inea informou que ainda não foi formalmente notificado pelo Ibama sobre as medidas judiciais, mas sustenta que vem cumprindo as obrigações assumidas no acordo.
O instituto afirmou manter profissionais atuando presencialmente no Cetas, incluindo uma médica-veterinária e uma zootecnista, além de disponibilizar um veículo para apoio às atividades operacionais e às ações de soltura de animais.
Sobre o fechamento da unidade, o órgão informou que os casos de resgate estão sendo redistribuídos emergencialmente de acordo com a gravidade, a localização e as condições clínicas dos animais.
Já a Polícia Civil informou que suas operações não sofreram impacto e que os animais apreendidos vêm sendo encaminhados para organizações parceiras. A Polícia Militar não se manifestou sobre o assunto.




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