Tarifas de Trump não desviam foco do STF, mas revelam a fragilidade política de Bolsonaro
A decisão do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras gerou forte repercussão no cenário diplomático e econômico. Mas no que diz respeito à situação judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro, envolvido em uma das mais graves acusações da história democrática recente — a tentativa de golpe para se manter no poder —, a análise entre juristas é clara: o tarifaço não muda os rumos do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), embora exponha de forma ainda mais aguda o isolamento político e diplomático de Bolsonaro.
A constatação, feita por cinco advogados ligados à defesa de réus investigados no mesmo inquérito, ouvidos por O Globo, reforça a percepção de que nem mesmo o apoio internacional que Bolsonaro acreditava manter poderá blindá-lo do avanço da Justiça brasileira. Um dos defensores chegou a dizer que a medida de Trump pode até “agravar” o cenário do ex-presidente, ao revelar o desgaste das alianças que antes pareciam sólidas. No campo jurídico, a pressão externa não tem força suficiente para interferir no peso das provas reunidas pela Polícia Federal.
Mais do que um episódio econômico, o tarifaço joga luz sobre o colapso de uma estratégia política que apostava na retórica nacionalista enquanto, nos bastidores, articulava a subversão das instituições. A investigação que se aproxima de sua fase final no STF aponta não apenas para o envolvimento direto de Bolsonaro, mas também para a atuação coordenada de seus aliados — como o deputado Eduardo Bolsonaro — em articulações internacionais suspeitas, como revelou o ministro Alexandre de Moraes ao prorrogar e ampliar o inquérito contra o filho do ex-presidente.
Em Brasília, a leitura predominante entre juristas é que não há espaço para hesitação por parte do procurador-geral da República, Paulo Gonet, nem para recuos estratégicos por influência de crises externas. O calendário está definido: a Primeira Turma do STF, composta por Zanin, Fux, Cármen Lúcia, Dino e Moraes, deve julgar o caso até setembro. A aposta é que o tribunal seguirá em frente com o processo, mesmo em meio à instabilidade geopolítica.
A reação do ministro Flávio Dino, nas redes sociais, foi sutil, mas emblemática. Ao destacar o papel do STF como guardião da soberania nacional e da democracia, Dino pareceu responder, com um tom institucional, tanto à ofensiva de Trump quanto às movimentações internas que tentaram corromper o processo democrático. Moraes, por sua vez, manteve-se em silêncio, mas sua atuação fala por si: acelerou o inquérito, prendeu figuras-chave, e estabeleceu um roteiro jurídico que tende a encurtar o espaço para manobras políticas.
É evidente que o episódio revela mais do que uma crise comercial. Ele escancara o quanto Bolsonaro, que durante anos se apoiou em alianças ideológicas internacionais, já não consegue usar esses laços nem como escudo político nem como instrumento de pressão. A tentativa de reverter o jogo por meio de discursos antiglobalistas ou acenos a ex-aliados já não funciona. A retórica de “defesa da soberania”, ironicamente, volta-se contra quem tentou instrumentalizá-la para sabotar a democracia.
O STF está diante de uma oportunidade histórica: não apenas para julgar um ex-presidente, mas para afirmar que nenhum acordo político, diplomático ou econômico pode se sobrepor ao Estado de Direito. As tarifas de Trump são um abalo, sem dúvida — mas para a economia brasileira. No tribunal, o verdadeiro terremoto está prestes a acontecer, e seu epicentro tem nome e sobrenome.




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