Tensão no STF: General é advertido por Moraes em audiência sobre trama golpista
- Marcus Modesto
- 19 de mai.
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A audiência desta segunda-feira (19), no Supremo Tribunal Federal (STF), expôs mais uma vez os bastidores do plano golpista que tentou impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante o depoimento do general da reserva Marco Antônio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, o ministro Alexandre de Moraes interrompeu a oitiva para adverti-lo diretamente: “O senhor falseou a verdade na polícia ou está falseando aqui?”. A declaração escancarou a tensão entre os militares convocados como testemunhas e o Judiciário que tenta destrinchar o envolvimento de autoridades na tentativa de ruptura institucional.
Freire Gomes prestava depoimento como testemunha no processo do chamado núcleo duro da trama — formado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O ponto de atrito com Moraes surgiu quando o general omitiu, em plenário, a informação de que o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, teria se colocado à disposição de Bolsonaro durante uma reunião em que foi apresentado um estudo jurídico para justificar o golpe.
Ao ser confrontado, Freire Gomes tentou relativizar: “Em 50 anos de Exército, jamais mentiria”. Disse que Garnier afirmou “estar com o presidente”, mas preferiu não interpretar o sentido da frase — um recuo que soou como conveniente para muitos que acompanham o caso.
Voz de prisão que não veio
Outro trecho marcante do depoimento diz respeito à reunião em que Bolsonaro teria apresentado um estudo propondo medidas como Estado de Sítio e decretação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Freire Gomes negou veementemente que tenha dado voz de prisão ao então presidente, como foi cogitado nos bastidores após a revelação do conteúdo da minuta golpista.
Segundo ele, a resposta ao plano foi um “alerta jurídico”, e não uma reação institucional mais contundente. “Alertei ao presidente que, se ele saísse dos aspectos legais, além de não concordarmos, ele seria implicado juridicamente”, afirmou, sugerindo uma discordância mais protocolar do que efetiva.
A declaração reforça as críticas de que os comandantes militares da época adotaram uma postura ambígua diante do avanço golpista — nem apoiaram formalmente, nem impediram com a firmeza que o momento exigia.
Moraes corta tentativa de “circo” no tribunal
A audiência ainda teve momentos de acirramento entre Moraes e os advogados de defesa. O ministro perdeu a paciência com Eumar Novak, defensor do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, ao notar a repetição insistente de uma pergunta para tentar induzir a testemunha.
“Não estamos aqui para fazer circo. Não vou permitir que Vossa Excelência faça circo no meu tribunal”, disparou Moraes. “Não adianta repetir seis vezes a mesma pergunta”.
O episódio expõe o nervosismo crescente das defesas diante de um julgamento que se aproxima de figuras-chave do governo Bolsonaro, com potencial de abrir precedentes inéditos na responsabilização de militares por envolvimento político-institucional direto em tentativas de ruptura democrática.
O STF, ao cobrar de testemunhas respostas claras e coesas, tenta quebrar a blindagem que, historicamente, protegeu o alto escalão das Forças Armadas. O depoimento de Freire Gomes revelou mais do que ele tentou esconder — e deixou no ar a dúvida incômoda: até onde os militares sabiam e o que, de fato, fizeram para impedir o golpe?




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