Turismo social ou vitrine política? O uso do lazer público em debate
- Marcus Modesto
- 4 de mai.
- 2 min de leitura
A Prefeitura de Volta Redonda deu início a mais uma etapa do programa “Viva a Melhor Idade”, levando centenas de idosos para um passeio em Mangaratiba, na Costa Verde. O destino escolhido, o Hotel Portobello Resort, chama atenção pelo padrão elevado: estrutura de resort, frente para a Baía da Ilha Grande e cercado pela Mata Atlântica. Um cenário paradisíaco — mas que também levanta questionamentos sobre prioridades e critérios na aplicação de recursos públicos.
A iniciativa é apresentada como recompensa aos idosos que mantêm frequência nas atividades físicas oferecidas pelo município. Na prática, porém, o modelo adotado abre espaço para debate: até que ponto o acesso ao lazer deve estar condicionado a metas de حضور e desempenho? E mais — qual é o custo total dessas viagens e o impacto real para a coletividade?
Não há dúvida de que programas voltados à terceira idade são essenciais, especialmente em uma sociedade que envelhece rapidamente. Os relatos de melhora na saúde, redução de dores e combate à solidão reforçam a importância de políticas públicas contínuas. Ainda assim, a escolha por experiências em resorts, com toda a estrutura de entretenimento e hospedagem, parece destoar da realidade de muitos serviços básicos que ainda enfrentam limitações no próprio município.
Outro ponto que merece atenção é o caráter de visibilidade dessas ações. Em tempos de forte exposição nas redes sociais e disputa por narrativa, iniciativas como essa acabam funcionando também como vitrine política. Ônibus cheios, embarques organizados e destinos atrativos rendem imagens positivas — mas nem sempre refletem, de forma transparente, a totalidade das políticas públicas voltadas à população idosa.
Além disso, há a questão da abrangência. Embora a previsão seja atender milhares de idosos ao longo do ano, o número ainda representa apenas uma parcela do total dessa população em Volta Redonda. Isso levanta uma discussão inevitável: o programa está promovendo inclusão ampla ou beneficiando grupos específicos com acesso já estruturado às atividades municipais?
O lazer, sem dúvida, é um direito — não um privilégio. Mas quando ele se transforma em ferramenta de promoção institucional, é necessário redobrar a atenção. Transparência nos gastos, critérios claros de participação e equilíbrio nas prioridades devem ser parte central de qualquer política pública que pretenda, de fato, melhorar a qualidade de vida da população.
Entre o discurso de valorização e a prática administrativa, fica a pergunta que precisa ser enfrentada: trata-se de uma política sustentável de bem-estar ou de uma ação pontual com forte apelo de imagem?
Foto Cris Oliveira




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