Turma do Castelinho: a esquina onde Barra Mansa aprendeu a sonhar
- Marcus Modesto
- 21 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Por Marcus Modesto
Na esquina do Castelinho, em Barra Mansa, o tempo aprendeu a andar devagar. Há exatos 51 anos, nascia ali muito mais do que uma turma de amigos. Surgia um território livre, improvisado, inquieto — um ponto de encontro onde ideias ferviam como café forte em copo americano.
Nos anos 70 e 80, quando o país ainda aprendia a respirar depois de longos silêncios, aquela esquina virou palco. E palco, ali, nunca foi figura de linguagem. Tinha teatro de rua inspirado em Augusto Boal, com atores e espectadores se confundindo, derrubando a quarta parede e, às vezes, até o bom senso. Tinha mural de poesia, versos colados como manifestos, rabiscados à mão, desafiando o cinza dos muros e das certezas. Tinha rock autoral com o grupo O Pôr do Sol, amplificadores improvisados, letras que falavam de liberdade, sonhos e angústias que só quem era jovem naquela época entende até hoje.
A Turma do Castelinho não tinha estatuto, presidente ou ata de fundação. Tinha presença. Tinha ideias. Tinha coragem. Era criativa por natureza e barulhenta por necessidade. A esquina via passar estudantes, artistas, militantes, curiosos, gente que só queria conversar e gente que queria mudar o mundo — ou pelo menos provocar algum incômodo.
Daquele chão irregular saíram médicos, engenheiros, jornalistas, empresários. Saíram também aqueles que não deram certo, no sentido mais cruel e honesto da expressão. E talvez justamente por isso a turma tenha sido tão verdadeira. Nem todos viraram exemplo, mas todos foram experiência. Nem todos venceram, mas quase todos viveram intensamente.
Cinquenta e um anos depois, a esquina continua ali. O Castelinho resiste ao tempo, mesmo que os cabelos tenham embranquecido e os encontros já não sejam diários. O que ficou foi o espírito: a certeza de que Barra Mansa já teve — e ainda tem — gente capaz de transformar uma simples esquina em espaço de arte, debate, rebeldia e afeto.
A Turma do Castelinho não foi só um grupo. Foi um estado de espírito. E estados de espírito, quando são fortes, não envelhecem.
Foto Marcus Modesto




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