UE vê maioria favorável, mas adia acordo com Mercosul diante de impasses políticos
- Marcus Modesto
- 19 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou nesta sexta-feira (19) que existe apoio suficiente entre os países da União Europeia para a aprovação do acordo comercial com o Mercosul. A avaliação otimista, no entanto, veio acompanhada da confirmação do adiamento da assinatura do tratado, inicialmente prevista para este sábado (20).
Segundo von der Leyen, após conversas com os parceiros sul-americanos, ficou acertado um adiamento técnico da formalização do acordo. A presidente afirmou estar confiante na construção de uma maioria capaz de concluir o processo, mas reconheceu que ainda há resistências políticas relevantes dentro do bloco.
A decisão representa mais um capítulo em uma negociação que se arrasta há mais de 20 anos e que voltou ao centro do debate com a reunião do Conselho Europeu, em Bruxelas. De acordo com fontes diplomáticas, a nova previsão é que a conclusão do acordo fique para janeiro, o que obrigou governos e agentes econômicos a reverem expectativas.
Pressão agrícola leva Comissão a recalcular estratégia
O plano da Comissão Europeia era fechar o acordo nesta semana, criando a maior área de livre comércio do mundo em número de países envolvidos. A estratégia foi revista após a Itália se alinhar à França e defender mais tempo para ajustes, especialmente relacionados à proteção do setor agrícola europeu.
O tratado prevê a redução gradual de tarifas, além de regras comuns para comércio de produtos industriais e agrícolas, serviços, investimentos e padrões regulatórios. Apesar do escopo amplo, a agricultura tem sido o ponto mais sensível das negociações.
França mantém veto político
A França segue como o principal foco de resistência. O presidente Emmanuel Macron reiterou que não apoiará o acordo sem novas salvaguardas aos agricultores franceses, que temem concorrência de produtos do Mercosul, considerados mais baratos e sujeitos a exigências ambientais menos rigorosas.
Macron também afirmou que Paris não aceitará qualquer tentativa de acelerar artificialmente a aprovação do pacto, reforçando o tom de confronto adotado pelo governo francês nas discussões internas da União Europeia.
Países defendem acordo como estratégia geopolítica
Em sentido oposto, Alemanha, Espanha e países nórdicos pressionam pela aprovação do acordo firmado politicamente em 2024 com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Para esses governos, o tratado é visto como instrumento estratégico para reduzir a dependência europeia da China e compensar impactos das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, defendeu decisões rápidas para preservar a credibilidade da política comercial europeia, enquanto o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, destacou o potencial de expansão de mercados e acesso a insumos estratégicos.
Itália adota posição de equilíbrio
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, adotou um discurso intermediário. Ela afirmou que a Itália pode apoiar o acordo, desde que haja respostas concretas às demandas do setor agrícola nacional. A posição de Roma foi considerada determinante para o adiamento, ao reforçar o bloco de países que pedem ajustes adicionais no texto.
Brasil aposta em solução política
No Mercosul, o governo brasileiro mantém um discurso de confiança. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva relatou conversa telefônica com Meloni, na qual a premiê teria afirmado não ser contrária ao acordo, mas enfrentar dificuldades políticas internas devido à pressão dos agricultores.
Lula avaliou que, com mais tempo, a Itália tende a se alinhar ao tratado, sinalizando que o Brasil aposta na superação dos entraves ainda neste início de 2025.
Protestos expõem tensão em Bruxelas
O debate ocorreu sob forte pressão social. Milhares de agricultores protestaram em Bruxelas contra a política agrícola da União Europeia e contra o acordo com o Mercosul. A mobilização levou tratores às ruas, resultou em confrontos com a polícia e causou danos a prédios próximos às instituições europeias.
Aprovação exige maioria qualificada
A ratificação do acordo depende do aval do Conselho Europeu, que exige maioria qualificada: ao menos 15 dos 27 países do bloco, representando 65% da população da UE. Esse é o principal obstáculo político no momento.
Embora o foco do debate esteja no agronegócio, o acordo envolve também indústria, serviços, investimentos e propriedade intelectual, o que explica o apoio de setores econômicos influentes. Com o adiamento, a possibilidade de assinatura ainda em 2025 foi praticamente descartada, prolongando a incerteza em torno de um dos maiores acordos comerciais do mundo.




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