A NOSSA HISTÓRIA | Flávio de Carvalho — um gigante do modernismo esquecido em sua própria terra
- Marcus Modesto
- há 15 minutos
- 3 min de leitura

Por Marcus Modesto
Flávio de Rezende Carvalho nasceu em 10 de agosto de 1899, no distrito de Amparo, em Barra Mansa (RJ). Filho de Raul de Rezende Carvalho, fazendeiro, e de Ophelia Crissiuma de Carvalho, veio de uma família ligada à elite rural da região, em um período em que Barra Mansa ainda estava profundamente associada à economia agrícola.
Ainda criança, mudou-se com a família para São Paulo, acompanhando o deslocamento de famílias tradicionais do interior fluminense para os centros urbanos em ascensão no início do século XX. Foi na capital paulista que Flávio teve seus primeiros contatos mais amplos com a vida cultural, intelectual e urbana, muito diferente do ambiente rural de sua infância em Amparo.
Na adolescência, a família decidiu investir em sua formação e o enviou para a Europa, onde viveu entre 1911 e 1922. Inicialmente esteve na França, em contato com o ambiente artístico parisiense, e depois seguiu para a Inglaterra, onde cursou engenharia civil na Universidade de Durham, ao mesmo tempo em que estudou belas-artes. Essa formação dupla — técnica e artística — marcaria definitivamente sua trajetória e explicaria sua atuação múltipla como arquiteto, artista plástico, escritor e pensador.
De volta ao Brasil em 1922, ano simbólico para a cultura nacional, Flávio de Carvalho se estabeleceu definitivamente em São Paulo. Passou a atuar como engenheiro e arquiteto, mas rapidamente se destacou como uma das figuras mais inquietas do modernismo brasileiro. Seus projetos arquitetônicos já revelavam uma visão radical, como o audacioso projeto para o Palácio do Governo de São Paulo, em 1927, que rompia com os padrões clássicos ainda dominantes.
Paralelamente, desenvolveu uma produção intensa nas artes plásticas, marcada pelo expressionismo, pela investigação psicológica e pela influência da psicanálise. Sua pintura não buscava a beleza convencional, mas a tensão, o conflito e o inconsciente. É nesse contexto que surge o retrato de Roberto Burle Marx, no qual Flávio abandona qualquer compromisso com o realismo acadêmico para captar a força criadora e a inquietação intelectual do paisagista. O quadro simboliza o encontro de dois artistas fundamentais da cultura brasileira, unidos pela ruptura e pela experimentação.
Flávio de Carvalho também entrou para a história como pioneiro da performance e da intervenção urbana no Brasil. Em 1931, realizou a célebre Experiência nº 2, ao caminhar deliberadamente contra uma procissão de Corpus Christi no centro de São Paulo, analisando as reações coletivas. Em 1956, chocou novamente a sociedade ao desfilar com um traje masculino de saia, propondo uma reflexão sobre vestimenta, clima e comportamento social. Nada era gratuito: tudo era método, provocação e estudo do comportamento humano.
Atuou ainda no teatro experimental, fundando o Teatro da Experiência, escreveu ensaios, manifestos e romances, participou de bienais nacionais e internacionais, incluindo a Bienal de São Paulo e a Bienal de Veneza, e influenciou gerações de artistas que viriam depois.
Apesar dessa trajetória sólida, documentada e amplamente estudada fora de sua cidade natal, Flávio de Carvalho permanece praticamente desconhecido em Barra Mansa. Não há políticas públicas consistentes, espaços de memória, projetos educativos ou ações permanentes que apresentem à população o artista que nasceu em Amparo e ajudou a redefinir a arte brasileira no século XX.
Esse esquecimento não é apenas cultural — é institucional. Revela uma incapacidade histórica de reconhecer patrimônios que não cabem em discursos fáceis ou comemorativos. Flávio de Carvalho foi inquieto, provocador, incômodo. Talvez por isso siga sendo ignorado.
Diante desse cenário, as perguntas são inevitáveis:
Será que o presidente da Câmara Municipal de Barra Mansa sabe quem foi Flávio de Carvalho?
Será que o prefeito conhece a importância do artista que nasceu em seu município e é referência nacional?
Se a resposta for negativa, o problema não está apenas na falta de memória da população, mas na omissão do poder público. Porque uma cidade que ignora seus grandes nomes também escolhe, conscientemente ou não, empobrecer a própria história.




Comentários