Após duas décadas de trabalho, catadores conquistam protagonismo na coleta seletiva de Barra Mansa
- Marcus Modesto
- 30 de jun.
- 2 min de leitura
Enquanto obras e inaugurações costumam ocupar os holofotes da administração pública, uma decisão tomada nesta semana em Barra Mansa chama atenção por atingir diretamente uma categoria que durante anos permaneceu à margem das políticas públicas: os catadores de materiais recicláveis.
A Cooperativa Mista dos Catadores de Materiais Recicláveis de Barra Mansa (Coopcat), que há cerca de 20 anos atua na triagem e destinação de resíduos recicláveis, passa agora a ser responsável também pela coleta seletiva no município. A medida representa um reconhecimento tardio, mas importante, ao trabalho desenvolvido por homens e mulheres que transformaram a reciclagem em fonte de renda e instrumento de preservação ambiental.
A mudança levanta uma reflexão inevitável: por que uma cooperativa que já possuía experiência comprovada no setor precisou esperar tanto tempo para assumir uma função estratégica dentro da gestão dos resíduos sólidos da cidade?
Durante décadas, os catadores exerceram um papel fundamental na cadeia da reciclagem, muitas vezes enfrentando dificuldades estruturais, baixa remuneração e pouca visibilidade. Mesmo sendo responsáveis por retirar toneladas de materiais do fluxo comum do lixo urbano, contribuindo para a preservação ambiental e redução dos custos públicos, raramente estiveram no centro das discussões sobre sustentabilidade.
Agora, com a ampliação das atividades da Coopcat, abre-se a possibilidade de fortalecimento da economia circular, geração de novos postos de trabalho e aumento da renda dos cooperados. Também há expectativa de melhora nos índices de reciclagem do município, que ainda estão distantes dos patamares considerados ideais por especialistas da área ambiental.
Outro aspecto relevante é o impacto financeiro. Quanto maior o volume de resíduos reciclados, menor a quantidade de lixo destinada ao aterro sanitário, reduzindo custos operacionais e prolongando a vida útil da estrutura. Além disso, o aumento dos indicadores ambientais pode resultar em maior participação do município nos recursos provenientes do ICMS Ecológico.
A presidente da Coopcat, Maria Aparecida de Assis, definiu o momento como uma conquista construída ao longo de duas décadas de trabalho. Para os cooperados, a nova responsabilidade representa mais do que uma ampliação de serviço: significa valorização profissional e reconhecimento de uma atividade que historicamente ajudou a cidade a lidar com um de seus maiores desafios urbanos — a destinação adequada dos resíduos.
A expectativa agora é que o discurso ambiental seja acompanhado por investimentos efetivos em educação ambiental, ampliação dos pontos de coleta e campanhas permanentes de conscientização. Afinal, não basta transferir a responsabilidade para a cooperativa. O sucesso da coleta seletiva depende também do compromisso do poder público e da participação da população.
O desafio está lançado. Se a cidade pretende avançar nos índices de reciclagem e transformar sustentabilidade em política pública permanente, os catadores deixam de ser coadjuvantes e passam a ocupar o lugar que há muito tempo lhes era devido.
Foto Arquivo




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