Banco Central adiou ação dura e crise do Banco Master se aprofundou
- Marcus Modesto
- 28 de jan.
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Roberto Campos Neto, enquanto presidente do Banco Central, estava ciente dos sérios problemas de liquidez enfrentados pelo Banco Master, mas optou por não avançar com medidas mais rigorosas contra a instituição. À época, a leitura interna era de que o banco ainda possuía ativos negociáveis suficientes para permitir uma saída menos traumática, evitando impactos maiores sobre o sistema financeiro.
Reportagem do Estadão revela que a estratégia considerada envolvia uma reestruturação clássica do tipo good bank e bad bank: os ativos saudáveis seriam separados dos problemáticos, reduzindo riscos ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e limitando efeitos sistêmicos. Essa solução, no entanto, nunca saiu do papel.
O Banco Master experimentou uma expansão acelerada entre 2019 e 2024, exatamente durante o período em que Campos Neto comandou a autoridade monetária. Segundo apuração, houve até um ultimato informal para que uma solução definitiva fosse apresentada até março de 2025. A liquidação, porém, só ocorreu em novembro do ano passado, já na gestão de Gabriel Galípolo.
Decisões técnicas sob questionamento
A pessoas próximas, Campos Neto sustenta que as decisões no Banco Central são técnicas e colegiadas, passando pela Diretoria de Fiscalização e pelo conjunto da diretoria. Segundo esse argumento, não houve, durante sua gestão, uma proposta formal de voto para intervenção ou liquidação do Master.
Apesar disso, o Estadão apurou que em ao menos dois momentos de 2024 — março e novembro — Campos Neto teria atuado diretamente para evitar medidas mais severas. As datas coincidem com períodos de intensificação da fiscalização, conforme relatado pelo próprio Banco Central ao Tribunal de Contas da União (TCU), em processo relatado pelo ministro Jhonatan de Jesus.
Liquidez em colapso
Documento encaminhado ao TCU aponta que, no primeiro semestre de 2024, o Banco Central passou a acompanhar de forma contínua o risco de liquidez do Master. O banco enfrentava um calendário pesado de desembolsos, sustentado por um estoque reduzido de ativos líquidos.
Diante desse cenário, o BC exigiu providências para reforçar a liquidez e a apresentação de um plano de contingência atualizado. No segundo semestre, a situação se deteriorou ainda mais. O plano de negócios previa a captação de R$ 15 bilhões em recursos de longo prazo, mas apenas R$ 2 bilhões foram obtidos.
Mesmo assim, a instituição seguiu contratando operações estruturadas de longo prazo, com baixa liquidez e pouca geração de caixa. O Banco Central concluiu que falhas no gerenciamento do risco de crédito agravaram decisivamente a crise.
Irregularidades e brechas regulatórias
O relatório do BC lista uma série de irregularidades, como insuficiência de capital após a correção de informações incorretas prestadas ao órgão regulador e a inexistência de ativos líquidos no fundo que sustentava operações estruturadas. Também foram identificadas falhas no cumprimento de normas de gerenciamento de risco de crédito.
Outro ponto sensível envolve uma norma editada em outubro de 2023, ainda sob a gestão de Campos Neto, que alterou o tratamento contábil de precatórios nos balanços bancários. A mudança abriu espaço para que o Master evitasse ajustes contábeis mais profundos, mesmo acumulando bilhões em precatórios e direitos creditórios, o que postergou a necessidade de aporte de capital ou venda forçada de ativos.
Alertas ignorados
As desconfianças não se limitavam ao regulador. Em agosto de 2023, a Warren Investimentos divulgou relatório recomendando que seus clientes evitassem a compra de CDBs do Banco Master, sinalizando preocupações já presentes no mercado.
A partir de novembro de 2024, segundo o Banco Central, o banco passou a enfrentar dificuldades para rolar dívidas captadas em plataformas de investimento e deixou de recolher, de forma recorrente, os depósitos compulsórios obrigatórios — um dos principais colchões de segurança do sistema financeiro.
Medidas tardias
Com o agravamento da situação, o BC notificou formalmente os dirigentes do Master sobre a possibilidade de aplicação de medidas prudenciais preventivas, previstas em resolução do Conselho Monetário Nacional de 2011. Essas medidas incluem exigência de capital adicional, venda de ativos e restrições à distribuição de lucros.
Daniel Vorcaro recebeu autorização para adquirir o então banco Máxima, rebatizado como Banco Master, em outubro de 2019, no primeiro ano da gestão de Campos Neto, indicado ao cargo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Crescimento fora de controle e investigação criminal
Entre 2019 e 2024, os ativos do Master saltaram de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões. Relatório da Moody’s aponta que o banco cresceu, em média, 40% ao ano, chegando a dobrar de tamanho em 2024, quando se tornou a 25ª maior instituição financeira do país.
Campos Neto defendeu, durante sua gestão, o estímulo a bancos pequenos e médios como estratégia para reduzir a concentração bancária. No caso do Master, porém, investigações da Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, apuram se esse ambiente regulatório foi explorado para um crescimento desordenado e possivelmente criminoso.
Segundo a PF, os fatos que levaram à prisão de Daniel Vorcaro tiveram início em janeiro de 2025, com a venda de carteiras falsas ao Banco de Brasília (BRB), apontada como um “crime novo” dentro do esquema investigado.
Foto Fernando Cruz




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