Bets deixam rastro de dívidas, sofrimento e dependência no Brasil
Proibição das apostas on-line expõe histórias de brasileiros que perderam patrimônio, emprego e vínculos familiares para o vício
A suspensão das operações das bets no Brasil trouxe esperança para brasileiros que enfrentam as consequências da dependência em jogos de apostas on-line. Para muitos deles, o problema deixou de ser apenas financeiro e passou a atingir a saúde mental, os relacionamentos e a própria sobrevivência.
Um desses casos é o de Kaio*, de 42 anos. Depois de seis anos convivendo com o vício, ele perdeu o carro, a casa e o emprego. Endividado, inclusive com agiotas, decidiu deixar a cidade onde vivia e se afastar da família por medo de represálias.
Hoje, mora sozinho no interior de Goiás, em um dormitório onde passa as noites dormindo no chão. A mudança de vida veio acompanhada da busca por tratamento. Neste ano, ele começou a frequentar um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e consultas médicas. Também utiliza medicamentos prescritos pelos profissionais que acompanham seu caso.
A história revela uma realidade que ganhou dimensão nacional com a popularização das apostas digitais. Diferentemente dos antigos ambientes de jogo, as plataformas passaram a estar disponíveis permanentemente nos celulares, facilitando o acesso e tornando as apostas parte da rotina de milhões de pessoas.
Bilhões movimentados
O tamanho do mercado também pode ser medido pelos valores movimentados. Dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) apontam que, entre outubro de 2024 e março de 2026, as apostas on-line movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix.
No mesmo período, as perdas das famílias brasileiras foram estimadas em R$ 62,5 bilhões — diferença entre os valores apostados e os recursos devolvidos em prêmios.
O montante representa uma parcela significativa da renda das famílias e ajuda a dimensionar o impacto econômico provocado pela expansão das apostas.
Regulamentação veio anos depois
As apostas esportivas foram autorizadas no Brasil em 2018, com a Lei 13.756, mas a regulamentação das plataformas só ocorreu anos depois, em dezembro de 2023.
A partir da regulamentação, passaram a existir exigências relacionadas à publicidade, aos alertas sobre os riscos do jogo e à proteção dos apostadores.
Especialistas, entretanto, apontam que a expansão das plataformas ocorreu em ritmo acelerado e atingiu principalmente pessoas mais vulneráveis.
A psiquiatra Katia Branco, do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, chama atenção para anúncios que apresentavam as apostas como uma possibilidade de obter dinheiro rapidamente. Segundo ela, essa mensagem pode atingir especialmente quem enfrenta dificuldades financeiras e procura uma forma imediata de aumentar a renda.
Celular virou porta de entrada
Para quem desenvolve comportamento compulsivo, a facilidade de acesso é um dos principais fatores de risco.
O jogador não precisa mais sair de casa ou procurar um estabelecimento específico. Basta abrir o celular para realizar uma nova aposta.
Kaio relata que recebia constantemente mensagens promocionais das plataformas. Mesmo depois dos prejuízos acumulados, os contatos continuavam chegando.
A facilidade de acesso também preocupa quando o público é formado por adolescentes.
Uma pesquisa realizada com 1.912 estudantes de 191 escolas brasileiras apontou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disseram ter feito apostas on-line no ano anterior ao levantamento.
O estudo identificou ainda que o contato com as apostas começa cedo. Entre estudantes de 11 anos, 9,5% disseram já ter realizado algum tipo de aposta.
Saúde mental entra no centro do problema
O impacto das apostas não termina quando o dinheiro acaba. Profissionais de saúde relatam casos de ansiedade, isolamento, mudanças de comportamento, aumento do consumo de álcool e sensação de falta de saída.
Em situações mais graves, o sofrimento pode evoluir para pensamentos relacionados à morte e ideação suicida.
A psiquiatra Katia Branco afirma que manifestações dessa natureza precisam ser tratadas de forma aberta nos consultórios e nos grupos terapêuticos, com acompanhamento profissional adequado.
A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Caps no Distrito Federal, também relata a chegada de pacientes em situações extremas, inclusive após tentativas de suicídio.
SUS amplia atendimento
Com o crescimento dos problemas associados ao jogo, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou os canais de atendimento para pessoas que apresentam dificuldades relacionadas às apostas.
O Ministério da Saúde também anunciou o reforço das ações de identificação e acompanhamento de apostadores frequentes, com a previsão de busca ativa e oferta de tratamento para os casos que necessitarem de acompanhamento especializado.
Para os profissionais, a participação da família e dos amigos pode ser fundamental para que o jogador reconheça a existência do problema e aceite procurar ajuda.
No caso de Kaio, o tratamento representa uma tentativa de reconstruir uma vida que, segundo ele próprio, foi destruída pelas apostas. Longe das plataformas e submetido a acompanhamento profissional, ele tenta agora recuperar o que perdeu e recomeçar.
Com informações Agência Brasil

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