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Contas esquecidas da escravidão podem revelar dívida histórica bilionária no Brasil

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 18 de mai.
  • 3 min de leitura

Um dos capítulos mais sensíveis e silenciosos da história do Brasil começa a emergir dos arquivos centenários da Caixa Econômica Federal. Pesquisas conduzidas com acompanhamento do Ministério Público Federal identificaram registros financeiros de pessoas escravizadas que mantinham depósitos em cadernetas de poupança no século XIX — recursos que, em muitos casos, poderiam ter sido destinados à compra da própria liberdade.


A descoberta reacende o debate sobre reparação histórica e levanta uma pergunta que atravessa gerações: o que aconteceu com o dinheiro acumulado por pessoas escravizadas antes da abolição da escravidão, em 1888?


Até o momento, foram localizadas 158 cadernetas de poupança pertencentes a escravizados no acervo histórico da Caixa. O MPF agora quer ampliar as investigações e determinou que o banco apresente informações detalhadas sobre os chamados “livros de conta corrente”, documentos que registravam depósitos, saques e juros pagos aos correntistas da época.


Os registros históricos apontam que os valores depositados recebiam remuneração de 6% a cada seis meses, o que aumenta ainda mais a relevância econômica das contas. A hipótese investigada é que parte desses recursos tenha sido poupada por escravizados na tentativa de conquistar a alforria, prática relativamente comum nos últimos anos do regime escravista brasileiro.


Na época da abolição, o Brasil ainda possuía mais de 723 mil pessoas escravizadas, segundo dados oficiais da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, equivalente ao Ministério da Agricultura do Império.


A investigação, no entanto, enfrenta um desafio monumental. O acervo histórico da Caixa ocupa aproximadamente 15 quilômetros lineares de documentos — extensão superior a três vezes o tamanho do famoso calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro. O trabalho envolve triagem, restauração, digitalização e catalogação de documentos antigos, muitos deles deteriorados pela ação do tempo.


A historiadora Keila Grinberg, que participa das pesquisas, afirma que o processo exige organização detalhada do material para permitir consultas públicas e avanço das investigações acadêmicas. Segundo ela, ainda não há estimativa de quantas contas pertencentes a escravizados foram abertas antes da abolição, nem informações claras sobre o destino final dos recursos depositados.


O debate ultrapassa a dimensão financeira e atinge diretamente a memória histórica do país. Para pesquisadores e movimentos negros, a investigação ajuda a romper décadas de silêncio institucional sobre a escravidão e seus impactos econômicos permanentes na sociedade brasileira.


O historiador Itan Cruz Ramos avalia que o apagamento documental faz parte de uma estrutura histórica que evitou enfrentar o legado escravista brasileiro. Segundo ele, perdas de arquivos e ausência de preservação da memória negra não foram simples acidentes administrativos, mas reflexo de um país que preferiu esconder parte de seu passado.


As pesquisas também trouxeram novamente à tona o chamado Fundo de Emancipação, criado pela Lei do Ventre Livre, em 1871, originalmente destinado a auxiliar pessoas escravizadas na conquista da liberdade. Estudos apontam que, anos depois, parte desses recursos teria sido desviada para financiar a imigração europeia, especialmente de trabalhadores italianos destinados às lavouras de café do Sudeste.


Em 1889, o fundo acumulava mais de 12 mil contos de réis — uma quantia gigantesca para a época, superior ao orçamento individual de vários ministérios do Império. Com a chegada da República, os registros desaparecem gradualmente dos documentos oficiais.


Agora, mais de um século depois da abolição, historiadores, juristas e movimentos sociais tentam reconstruir os rastros desse dinheiro perdido. A conclusão dos pesquisadores é direta: ainda existe muito da história financeira da escravidão brasileira escondido nos arquivos do país.



 
 
 

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