Crise na Segurança:Ordem Pública cresce, Guarda encolhe e conflito explode em Volta Redonda
- Marcus Modesto
- 20 de jan.
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A política de segurança pública em Volta Redonda virou palco de um conflito institucional que já não cabe mais nos bastidores do Palácio 17 de Julho. A criação e o fortalecimento da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) acabaram produzindo um efeito colateral grave: o esvaziamento progressivo da Guarda Municipal, corporação que há anos atua diretamente nas ruas da cidade.
Desde que a Semop saiu do papel, em 2021, a pasta passou a acumular poder, estrutura e recursos, assumindo funções que, na prática, se confundem com atribuições típicas de forças de segurança. O avanço da secretaria ocorreu enquanto a Guarda Municipal mergulhava em um cenário de abandono, com viaturas sucateadas, efetivo reduzido e ausência de investimentos básicos.
A tensão, que já era visível internamente, ganhou contornos públicos após a revelação do destino de uma emenda parlamentar de R$ 500 mil enviada ao município em 2024 pelo deputado federal Gutemberg Reis (MDB). O recurso, conforme a descrição oficial, tinha endereço certo: reforçar a Guarda Municipal com a compra de veículos. O dinheiro, porém, acabou fortalecendo a Secretaria de Ordem Pública.
Os recursos foram utilizados na aquisição de dois veículos de passeio e uma van, que passaram a integrar a frota da Semop. A situação gerou revolta entre os guardas, não apenas pelo desvio de finalidade, mas pela simbologia do gesto: enquanto a Guarda enfrenta dificuldades para manter o patrulhamento básico, outra pasta cresce à sua sombra, equipada com verba que deveria atender quem está na linha de frente.
Outro ponto que alimenta críticas é o modelo de aquisição dos veículos, realizado por adesão a uma ata de registro de preços de um consórcio do Rio Grande do Sul, sem licitação específica local para os carros de passeio. Para os guardas, a questão vai além da legalidade: trata-se de prioridade política e escolha administrativa.
Diante desse cenário, a Guarda Municipal decidiu reagir. A categoria anunciou uma manifestação marcada para o dia 9 de fevereiro, com caminhada entre a sede da corporação, na Ilha São João, e o Palácio 17 de Julho. O protesto é descrito pelos organizadores como um “grito de socorro” contra o sucateamento da instituição e a perda de espaço dentro da própria estrutura municipal.
Mesmo com o temor de represálias, os guardas afirmam que a mobilização será feita dentro da legalidade, envolvendo agentes de folga, aposentados, familiares e representantes de outras guardas municipais da região. O recado é claro: a insatisfação extrapolou os quartéis e chegou às ruas.
O paradoxo é evidente. Enquanto enfrenta o esvaziamento interno, a Guarda Municipal segue apresentando resultados operacionais, como a recente recuperação de um veículo furtado com apoio do sistema de monitoramento da prefeitura. A atuação demonstra que, apesar da falta de investimento, a corporação continua funcionando — ainda que no limite.
O conflito escancara uma pergunta incômoda: Volta Redonda precisa fortalecer a segurança pública ou criar estruturas paralelas que disputam poder, recursos e protagonismo? Enquanto essa resposta não vem, a crise entre Guarda Municipal e Ordem Pública segue crescendo, com reflexos diretos na gestão, na transparência e na própria segurança da população.
