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De meliante a monumento: a capivara que virou símbolo de uma Barra Mansa sem prioridades

Foto do escritor: Marcus Modesto
Marcus Modesto
14 de set.
3 min de leitura

No Dia Internacional da Capivara, a cidade pode até rir da história — mas também deveria aproveitar a ocasião para perguntar quanto custa transformar uma brincadeira em patrimônio e quais são, afinal, as prioridades do poder público


Barra Mansa decidiu eternizar uma capivara. E a história, que começou como uma ocorrência curiosa na Beira-Rio, acabou ganhando contornos de homenagem oficial, monumento e celebração pública.


Tudo muito simpático. Tudo muito engraçado. Mas, quando o poder público transforma uma ocorrência banal em símbolo de governo, a pergunta inevitavelmente aparece: é apenas bom humor ou também uma questão de prioridades?


A capivara ficou famosa depois que algumas palmeiras plantadas na Avenida Argemiro de Paula Coutinho, na Beira-Rio, apareceram danificadas. A suspeita inicial foi de vandalismo. O suposto “meliante”, porém, tinha quatro patas, pelos e uma dieta pouco compatível com a atividade criminosa tradicional.


Era uma capivara.


O episódio viralizou, virou folclore local e, em 8 de novembro de 2025, ganhou um capítulo definitivo: uma estátua foi inaugurada no mesmo espaço onde o animal havia protagonizado seu “delito gastronômico”.


A brincadeira é boa. A cidade pode rir. A população tem todo o direito de transformar a história em folclore.


O problema começa quando a propaganda institucional passa a ocupar o espaço que deveria ser reservado à discussão dos problemas concretos da cidade.


Enquanto uma capivara ganha monumento, Barra Mansa convive com problemas que não são engraçados: dificuldades financeiras, questionamentos sobre a gestão pública, problemas na prestação de serviços, saúde pressionada, infraestrutura que exige atenção e uma população que cobra respostas para questões muito mais urgentes.


É aí que a estátua deixa de ser apenas uma estátua.


Ela passa a ser um retrato simbólico de uma administração que precisa explicar se está conseguindo equilibrar entretenimento, comunicação institucional e responsabilidade administrativa.


Não há nada de errado em homenagear uma capivara. Pelo contrário. A fauna urbana merece respeito, e a presença desses animais nas margens do Rio Paraíba do Sul demonstra que os espaços urbanos também podem desempenhar papel importante na preservação da biodiversidade.


O próprio alerta ambiental é pertinente: não alimentar, não perseguir e não tentar tocar animais silvestres.


Mas transformar uma capivara em monumento municipal enquanto tantos moradores esperam respostas para problemas básicos produz uma contradição impossível de ignorar.


Barra Mansa precisa de símbolos, mas precisa muito mais de soluções.


A cidade não pode ser administrada como se a comunicação positiva fosse capaz de substituir políticas públicas. Monumentos podem render fotografias, curtidas e boas histórias. Mas não resolvem filas na saúde, não melhoram a qualidade da educação, não reduzem a violência, não equilibram as contas públicas, não recuperam ruas e não garantem serviços essenciais.


A capivara, evidentemente, não tem culpa nenhuma disso.


Aliás, talvez seja justamente ela a personagem mais inocente dessa história.


Comeu algumas palmeiras, ganhou fama e acabou recebendo uma estátua.


Se tivesse consciência do tamanho da homenagem, talvez até pedisse explicações sobre o orçamento municipal.


O Dia Internacional da Capivara, portanto, pode ser celebrado com bom humor. Mas também pode servir para uma reflexão menos confortável.


Uma cidade que transforma um episódio curioso em monumento precisa perguntar a si mesma se está valorizando sua identidade cultural ou simplesmente encontrando uma maneira divertida de ocupar o debate público.


Porque governar não é apenas produzir histórias que rendem engajamento.


Governar é enfrentar problemas.


E, nesse quesito, Barra Mansa tem uma fauna bem maior de desafios do que a capivara da Beira-Rio.


No fim, a verdadeira ironia talvez esteja justamente aí: o animal que foi chamado de “meliante” acabou ganhando um monumento; já os problemas da cidade continuam esperando uma solução.


Feliz Dia Internacional da Capivara.


E que ninguém mexa na estátua.


Pelo menos ela não tem culpa das prioridades da administração.

Foto Divulgação


 
 
 

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