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Espionagem na Abin: a falência de um Estado aparelhado

  • Foto do escritor: Marcus Modesto
    Marcus Modesto
  • 19 de jun. de 2025
  • 2 min de leitura

O caso da “Abin Paralela”, revelado oficialmente após a quebra de sigilo do relatório da Polícia Federal, escancara um dos episódios mais graves de desvio institucional desde a redemocratização. Sob o comando do então presidente Jair Bolsonaro e com a participação direta de seu filho Carlos Bolsonaro, o aparato de inteligência estatal foi transformado em ferramenta de vigilância clandestina contra opositores políticos, jornalistas e até membros do Supremo Tribunal Federal.


A tentativa de justificar o monitoramento do ministro Alexandre de Moraes com o argumento de um “erro” — por ter sido espionado um homônimo — beira o deboche. O relatório da PF é claro: as buscas no sistema ilegal FirstMile aconteceram num momento-chave, quando se abria o inquérito das fake news no STF, com Moraes à frente das investigações. A coincidência de datas não deixa margem para ingenuidades. O uso da estrutura da Abin para fins políticos não foi acidente, foi método.


Mais de 30 pessoas foram indiciadas, incluindo nomes ligados diretamente ao clã Bolsonaro. O ex-presidente, embora poupado neste inquérito específico, já responde por outras ações penais que envolvem as mesmas práticas — espionagem, desinformação e tentativas de subversão institucional. Trata-se de um padrão, não de um desvio pontual.


A reação de Carlos Bolsonaro nas redes sociais, com a habitual retórica de perseguição política, só reforça o desprezo que o grupo bolsonarista nutre pelas instituições. A estratégia é conhecida: atacar previamente as investigações, deslegitimar as autoridades e vender a narrativa de vítimas do sistema. É o manual populista sendo reeditado com a mesma tinta autoritária.


A verdadeira gravidade, no entanto, não está apenas na ilegalidade das ações. Está no fato de que tudo isso foi possível dentro das estruturas do Estado brasileiro. O FirstMile, sistema usado para rastrear ilegalmente cidadãos, funcionava à margem da lei, com conhecimento de agentes públicos. A espionagem não foi feita no porão — foi feita na sala de comando.


O caso da Abin Paralela é mais um alerta de que o Brasil ainda não conseguiu criar mecanismos eficazes para blindar suas instituições do uso criminoso por grupos no poder. O que se viu foi um ensaio perigoso de Estado policialesco, que não hesita em usar as ferramentas de inteligência para intimidar, vigiar e perseguir.


O agente responsável pela espionagem, agora foragido e exonerado, é apenas peça descartável de um esquema maior. A pergunta que resta é: quem mandou, quem sabia, quem se beneficiou?


As respostas começam a aparecer — e elas incomodam quem sempre viveu de manipular as sombras do sistema.



 
 
 

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